A Natureza objeto


Será esta árove uma máquina?

Observamos quase sempre, a natureza como algo exterior a nós mesmos, e isso tem uma explicação

Tendo como foco a análise temporal do desenvolvimento da sociedade ocidental, a atual crise ambiental é produto histórico de um modelo de desenvolvimento econômico, social e cultural. Neste processo, esta crise veio sendo apoiada e constituída por valores e paradigmas que a transformaram no que ela é hoje. Assim a realidade atual foi reciprocamente construída e reforçada por paradigmas e valores, e a superação da crise, implica necessariamente na superação desses paradigmas e valores.

Essa crise ambiental, não é simples de ser analisada, é complexa, multifacetada e multidimensional, afeta nossa saúde, nosso modo de vida, qualidade do meio ambiente, relações sociais, economia, tecnologia e política, daí a necessidade de ser analisada por diferentes seguimentos da sociedade, ou seja, de uma maneira interdisciplinar.

O autor Mauro Grün (1996) em seu livro Ética e Educação Ambiental – A conexão necessária, analisa e reconstrói esse processo histórico e identifica alguns valores e paradigmas em que se apoiou a construção da atual sociedade e ainda continua a apoiando…

O autor identifica que a ética antropocêntrica surgida a partir do renascimento, como sendo uma das principais causas da degradação ambiental, esta ética centrada no ser humano, está diretamente associada ao paradigma mecanicista, o qual inaugura a visão de que a natureza é uma máquina.

Esta mudança de modelo para uma visão que deixa de lado Deus como centro de tudo e coloca neste papel o ser humano e transforma o orgânico e natural em algo mecânico. O ser humano desde então se coloca em posição central no universo e a natureza de maneira secundária. Nesta época que ocorre cisão entre natureza e cultura, uma separação que levaria o futuro da humanidade a um antropocentrismo radical e apoiado fortemente pela razão.

A ciência moderna teve também um papel fundamental na difusão da lógica mecanicista da natureza, através do próprio método cientifico utilizado nas pesquisas, onde – a natureza, passa a ser não mais que, um objeto passivo de estudo dos cientistas. Percebemos que o ser humano se retira da natureza para que possa estudá-la cientificamente. Ao se retirar o ser humano se põe num lugar de descobridor e dominador da natureza…

Segundo Grün, o paradigma mecanicista; a ciência e sua metodologia objetificante; os valores individualistas, pragmáticos e racionais; a cisão cartesiana entre ser humano e natureza constitui uma barreira invisível para o entendimento da crise ambiental complexa e multifacetada e também para o desenvolvimento de uma educação ambiental realmente efetiva, nas palavras do mesmo autor constituem “uma impossibilidade radical de uma educação ambiental no cartesianismo”.

Uma das possíveis saídas para que seja realizada uma educação ambiental consistente, é que haja a superação da dicotomia ser humano x natureza. É necessário, que seja superada a visão da natureza como sendo uma fotografia de uma paisagem natural na parede onde nós, não nos reconhecemos e nem nos vemos; Por uma visão de uma natureza filme, em pleno desenvolvimento e movimento, cheio de cores, sons, perspectivas, problemas, onde nós somos atores em condição de atuar num cenário não menos importante, e ao mesmo tempo em que atuamos podemos assim mudar o desenrolar na história a todo o e qualquer momento.

Referência:

GRÜN, M. Ética e educação ambiental: a conexão necessária. 13ª ed. São Paulo: Papirus, 1996.

Educação antes de ser ambiental


“Educação ambiental, antes de tudo é educação”, é com esta frase de LOUREIRO (2004), que pretendo iniciar este post sobre esta observação que traduz a importância da educação como força transformadora do mundo.

Em resposta a grave crise socioambiental que o mundo passa, usar o adjetivo ambiental para qualificar Educação, caracteriza o foco de atuAÇÃO e debate deste prática, na degradação do ambiente,  no entanto, esta análise deve estar articulada também a uma contextualização social, cultural, histórica política, ideológica  e econômica. Para isso devemos nos desligar de uma visão de mundo dualista e que dicotomiza a visão natural e social como se uma não se relacionasse com a outra.

Não haveria a necessidade de uma Educação Ambiental, se tivessemos uma  efetiva educação a qual cumprisse seu papel social, e não como tem feito essa  educação genérica, tal qual a conhecemos atualmente, sem propósito pedagógico, sem vinculação histórica, sem critica, sem contextualização, sem o objetivo de formar cidadãos e sem a intenção real de orientar a sociedade a uma mudança de paradigma. Essa Educação é meramente conteudistas, tradicional, repressora e contribui para a reprodução do atual sistema.

Logo, na ausência de, uma Educação que cumpra o seu papel, surge o termo Educação Ambiental, que assume a responsabilidade em si mesmo de ser a agente de modificação e como acreditam muitos de salvação do mundo.

Para colocar ingredientes a mais nessa discussão, devemos nos lembrar que dentro do enfoque teórico e prático da própria Educação Ambiental, existem ainda alguns enfoques, como por exemplo,  a de uma Educação Ambiental conservadora e tradicional; e a de uma Educação Ambiental critica, emancipatória e transformadora. Como já deve ter ficado claro, neste blog priorizo a segunda vertente, por acreditar ser a mais interessante sobre o aspecto de ser mais efetiva, humanizadora e libertária.

E como identifcar uma abordagem da outra? Às vezes é fácil quando percebemos a falta de um viés interdisciplinar, a descontinuidade nos projetos de Educação Ambiental,  isso tudo somando a pouca capacitação de Educadores ambientais, ao pouco conhecimento teórico sobre o tema, a visões limitadas impostas pela mídia e personalidades que usam o termo para mera promoção de ideias e imagem.  Será que essa é a Educação Ambiental que vai fazer alguma diferença? Provavelmente não…

O tema é complexo exige tempo e estudos para ser elucidado, pretendo aqui continuar colocando essas ideias paralelo aos meus estudos sobre o tema e ajudando quem sabe a mais pessoas se interessarem por uma Educação Ambiental que realmente valha a pena.

Referência:

LOUREIRO, C. F. B Trajetória e fundamentos da educação ambiental. São Paulo: Cortez, 2004.

As diferentes correntes do pensamento ecológico


A caracterização de como se deu processo histórico referente a relação Ser Humano x Natureza, já foi anteriormente descrito neste blog, sendo, este entendimento básico, para um aprofundamento teórico, quando se analisa as origens dos problemas ambientais atuais, e igualmente importante na hora em que se planeja iniciar um projeto de Educação Ambiental.

Além disso,  sendo a Educação Ambiental é uma prática Interdisciplinar, ela nos permite e exige analisar, não somente os fatores biológicos, mas também os históricos, econômicos, geográficos e sociais. Este post pretende, categorizar e diferenciar as principais correntes de pensamento ecológico presentes em nossa sociedade segundo DIEGUES (2004).

O entendimento de como se baseiam as relações sociais entre ser humano x natureza, nos leva a perceber como nós percebemos a natureza e fundamentalmente, o modo como nós nos relacionamos diretamente com ela. Segue abaixo as definições:

a) Preservacionismo - Esta corrente de pensamento ecológico com bases em uma linha ecocêntrica, tem uma visão de natureza, relacionada a esta possuir um valor intrínseco, não devendo servir aos interesses exploratórios do ser humano. Busca a preservação de áreas naturais, pelo valor que tem em si mesmas e não nos valores para o uso humano. Assim a preservação lança mão de um conjunto de métodos, procedimentos e ações que visam garantir a proteção e integridade de espécies, habitats, ecossistemas e dos processos ecológicos.

Estas áreas de preservação são criadas quando há a necessidade de preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais, garantindo assim a sua intocabilidade. Nessas áreas é vetada qualquer forma de exploração dos recursos naturais com exceção dos casos previstos pela lei como a pesquisa, lazer e ações educação ambiental.

b) Conservacionismo – Vê uma finalidade de utilidade na natureza, para uso do ser humano. O movimento dos conservacionistas atribui aos recursos naturais o uso racional. Em sua concepção a natureza é lenta e o processo de manejo pode torná-la eficiente, essas idéias foram precursoras do conceito de desenvolvimento sustentável.

Áreas de conservação são criadas na intenção de resguardar os danos ambientais que levam ao prejuízo ao meio ambiente. Nestas áreas são permitidas as intervenções humanas, inclusive a exploração de qualquer recurso natural. Nas leis brasileiras ambientais, conservação significa proteção dos recursos naturais, com utilização racional, garantindo sua sustentabilidade. Segundo o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (2002) conservação é “o manejo do uso humano da natureza, compreendendo a preservação, a manutenção, a utilização sustentável, a restauração e a recuperação do ambiente natural, para que possa produzir o maior benefício, em bases sustentáveis, às atuais gerações, mantendo seu potencial de satisfazer as necessidades e aspirações das gerações futuras, e garantindo a sobrevivência dos seres vivos em geral.”

c) Ecologia Profunda - Esta corrente do pensamento ecológico segue uma linha preservacionista extrema, numa tomada de consciência ecológica profunda, que entende que o ser humano deve utilizar a natureza apenas para seus processos vitais, e isso não dá o direito de utilizá-la com uma finalidade, ou como forma de obtenção de lucro ou vantagens.  Adeptos desta corrente dão grande importância aos princípios éticos que devem reger as relações homem-natureza, e para que estes princípios sejam postos em prática, sugerem uma grande mudança política, afetando as estruturas econômicas, tecnológicas e ideológicas.

O termo Ecologia profunda (deep ecology) foi cunhado nos anos 70, nos idos do início do movimento ambientalista e advoga que toda a natureza tem valor intrínseco independente do utilitarismo e a vida humana não tem direito de reduzir a biodiversidade.

d) Ecologia Social – Esta corrente do pensamento ecológico segue uma linha preservacionista ecocêntrica, numa visão de que a degradação da natureza está diretamente ligada ao sistema capitalista, pois a acumulação de capital é à força de devastação da mesma. Os ecologistas sociais, dizem que o termo ecologia deve propor uma concepção mais ampla da natureza e da relação da humanidade com o mundo natural.

Esta corrente de pensamento da Ecologia Social se opõe ao domínio da natureza pelo ser humano, no entanto veem os seres humanos como seres sociais que se dividem em classes sociais como pobres, ricos, brancos, negros; e criticam a noção de Estado e propõem uma sociedade democrática, descentralizada e baseada na propriedade comunal de produção, são considerados anarquistas e utópicos.

e) Eco-Socialismo/Marxismo – Esta corrente do pensamento ecológico segue uma linha conservacionista. Ela analisa a questão ambiental, não no “fato” mas o “modo” como o ser humano explora a natureza. Teve sua origem no movimento de crítica ao marxismo clássico, a partir da década de 60.  A crítica da corrente eco-marxista se desenvolve em cima da explicação do sistema capitalista onde a natureza é uma simples mercadoria, objeto de consumo ou meio de produção.

Os eco-marxistas fazem uma critica entre a oposição do culturalismo, que vê na natureza uma ameaça e no naturalismo que demonstra uma aversão pela sociedade e cultura. O naturalismo preza uma mudança que se baseia em três premissas: o homem produz o meio que o cerca e é ao mesmo tempo seu produto; a natureza é parte da nossa história; a coletividade, e não o individuo, se relaciona com a natureza, isto é, a sociedade pertence à natureza e é um produto do mundo natural. Em resumo, o naturalismo propõe que a natureza é um lugar onde o ser humano se desenvolve e evoca um novo paradigma, no qual é necessária uma mudança nesta relação destrutiva com a natureza.

E você de que modo se relaciona com a natureza? Acha que ela tem que ser preservada ou conservada? Ela é quase sagrada como propõe a ecologia profunda? Será o capitalismo o único culpado por todos os problemas socioambientais como sugere a ecologia social? Ou será que somos, enquanto sociedade, fruto da natureza, ou seja, produto natural, devendo apenas ajustar a relação destrutiva que viemos travando com a natureza como propõe o eco-marxismo?

É uma boa questão para se pensar neste dia 5 de Junho, dia Mundial do Meio Ambiente.

Referências:

DIEGUES, A. C. S. O Mito moderno da natureza intocada. São Paulo, Ed. Hucitec, 2004. 382 p.

IBAMA/MMA Sistema Nacional de Unidades de Conservação Federais do Brasil. Ministério do Meio Ambiente. Acompanha CD. 2002.