Conservação da biodiversidade x desenvolvimento econômico. Quem perde? A rã

Aproveitando o embalo do post anterior sobre a COP10 – Convenção sobre a Diversidade Biológica, aproveito para narrar um fato curioso e correlato as questões de não conservação da biodiversidade ocorrido na Floresta Nacional Mário Xavier, localizada no município de Seropédica na Baixada Fluminense do estado do Rio de Janeiro. Esta Unidade de Conservação foi criada em 1986 pelo Decreto Federal nº 93369 e possui aproximadamente 500 hectares de importante relevância ecológica, pois, dentro de seus limites de conservação abriga uma exclusiva fisionomia de Mata Atlântica de baixada com terreno alagadiço. Este é o único fragmento restante desta fitofisionomia no Estado o que favorece o surgimento de um habitat único para a sobrevivência de algumas espécies endêmicas de peixes e anfíbios.

Pequenina rã Phisalaemus soaresi ameaçada de extinção


No entanto, mesmo sendo uma Unidade de Conservação Federal administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Flona Mário Xavier não está protegida dos constantes incêndios, pastoreio e extração de vegetação para uso humano. Se considerarmos o passado de ocupação sócio-histórico da região, observamos ainda dentro da mesma Floresta algumas áreas com indícios de degradações pretéritas de plantações de eucaliptos e retirada de saibro, além desta possuir para fins de conservação da diversidade biológica, uma área bastante reduzida.
Não bastassem as agressões sofridas pela ocupação sócio-histórica e pela atual comunidade local, a Flona Mário Xavier terá parte de sua área derrubada, devido à construção de um viaduto, parte do projeto maior do Arco Rodoviário Metropolitano do Rio de Janeiro, uma das obras previstas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Dada a característica única desta Unidade de Conservação e o endemismo de algumas espécies, dentre elas a simpática Phisalaemus soaresi, seria mais coerente a transposição deste viaduto do Arco Rodoviário para outro local de menor relevância ecológica e não dentro da área de conservação da Flona Mário Xavier. Em uma reportagem muito esclarecedora, o site ((O Eco)) analisou o Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) do Arco Metropolitano, e comprovou que neste Documento não consta a existência de ameaça a rã.
O papel da Educação Ambiental é levar a uma tomada de consciência, de reflexão crítica e transformadora, tendo como princípio sensibilizar as pessoas, para que mudem posturas individuais diante de causas urgentes como, por exemplo, a conservação da natureza e da biodiversidade. Mas será que a Educação Ambiental tem esse alcance tão amplo em casos como este da pequena rã, onde prevalece interesses de Desenvolvimento Econômico em um país? Fica a certeza que entre a Conservação da biodiversidade e o desenvolvimento econômico… Quem perde é a rã.

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5 opiniões sobre “Conservação da biodiversidade x desenvolvimento econômico. Quem perde? A rã

  1. A EDUCAÇÃO AMBIENTAL QUE PRECISAMOS NO SÉCULO XXI

    Uma frase ouvida recentemente de um ativista ambiental – “atuamos sobre os efeitos e não sobre as causas” – sintetiza a tendência de, para simplificar a discussão, optamos por não assumir a plenitude do discussão, relegando a uma posição menor a necessidade de encontrar soluções. Ou seja, “é melhor conviver com o problema do que gerar as soluções”.

    Acredito que as duas frases é que definem, em relação à Educação Ambiental, a real necessidade de uma reflexão de alguma de suas bases.

    Este contexto não é diferente em outros países (tomamos como base pesquisa que o NEPA realizou para a Associação Portuguesa de Educação Ambiental / ASPEA, comparando os resultados com pesquisa realizada para o MEC.

    A proposta não está baseada em opiniões pessoais – em EA este tipo de postura vale muito, pois se admite “ter longa experiência na área” o que, em muitos casos, sem ter uma componente de “avaliação de resultados, fica restrita a “pensar que tudo vai bem, e não pode ficar melhor”.

    A iniciativa do NEPA em “induzir uma reflexão sobre a EA do século passado e aquela que precisamos para o século XXI” tem nos revelado algumas resistências daqueles que partem do princípio que esta reflexão é um “processo de identificar e reconhecer falhas” e, deste modo, não tem interesse que isso ocorra. Entende-se esta “postura reativa”, mas a postura do NEPA deve ser entendida como de “aprimorar pontos” até hoje adotamos como paradigmas..
    .
    Nosso grupo adota a postura de “sustentar posições” tendo como base dados pesquisados, e respeita as opiniões dos demais (não poderia ser diferente para quem pretende uma reflexão conjunta), mas que estas outras opiniões venham também lastreadas em fatos, de modo que seja possível comparar experiências em diferentes contextos.

    Essa é uma postura que a sociedade não pode se negar a fazer sob pena de estar assumindo a idéia de que o princípio da prevenção não tem espaço no âmbito da Educação Ambiental.

    Observando os valores financeiros alocados a Programas de Educação Ambiental ver-se – á que são valores altamente significativos, aportados pelos diferentes segmentos sociais, públicos e privados. Porém se, em contrapartida, tentamos identificar quantos destes programas tem propostas de avaliação de sua eficácia junto à comunidade ao qual o programa foi aplicado, teremos uma (também) significativa frustração.

    Analisando pelos extremos, ou não há necessidade de “avaliar resultados de Programas de EA” ou está faltando que este aspecto seja obrigatório no processo de aprovação de tais programas.

    Concordamos que os resultados de um programa dessa natureza só pode ser mensurados em um horizonte muito amplo de acompanhamento (gerações), mas não podemos aceitar que não se possa lançar mão de “avaliações em curto prazo” onde se tente mensurar a diferença – certamente positivo – entre o nível de percepção ambiental do segmento que irá receber o programa e aquele avaliado após sua conclusão.

    Como, quase sempre, “o ótimo é o inimigo do bom”, não se aceita um encaminhamento “bom”, pois estamos à procura do encaminhamento “ótimo”, não se justifica..
    .
    Vivemos tempos de um novo século, contexto que nos permite e exige a abertura das mentes para novas reflexões.

    Já evoluímos muito na área da conscientização ambiental da sociedade, fato que se deve unicamente aos resultados da Educação Ambiental adotada no século XX, mas não há como prescindir da necessidade de reavaliar premissas, através de ações (boas e ótimas) que permitam estruturar um processo de avaliação contínua de resultados.

    Roosevelt S. Fernandes
    Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental / NEPA
    roosevelt@ebrnet.com.br

    • Sr. Roosevelt,
      Obrigada pelas palavras e por compartilhar conosco suas opiniões, as quais particularmente concordo quase que integralmente. De fato, não devemos agir somente sobre os efeitos, mas principalmente sobre a causa e concordo ainda mais com a proposta de uma EA ininterrupta e a longo prazo, que deve ser implementada, sendo feitas as devidas avaliações ao longo do processo. Realmente os investimentos em EA são altos, mas concordo que retorno ainda não são os desejáveis. Obrigada pela sua participação sempre presente na construção de um blog democrático na perspectiva de construção de uma EA voltada para os interesses e necessidades do Século XXI.
      =)

  2. AINDA NA LINHA DA “EA NECESSÁRIA AO SÉCULO XXI”

    Seria muito bom que esta discussão fosse ampliada entre educadores e gestores públicos ligados à área de EA, seja qual for a opinião de cada um. Precisamos sair da discussão para a tomada de posição e isso depende da análise de todos os aspectos decorrente dessa (ao nosso ver, imprescindível) mudança / adequação de paradigmas.

    Roosevelt
    NEPA
    roosevelt@ebrnet.com.br

  3. Pingback: A Biologia da Conservação e suas considerações éticas e ideológicas | Educação Ambiental Crítica

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