Consumo infinito em um planeta finito

Seguindo o pressuposto de que os recursos naturais presentes no mundo são em sua grande maioria finitos, e diante desta constatação, partindo de outro principio, de que no mundo atual ocorre uma má distribuição no uso desses recursos, acontecendo o uso de forma desigual, ou seja, há os que têm mais acesso aos recursos (ricos) e os que têm menos acesso a estes recursos (pobres), chegamos a uma inconclusiva questão o sobre o que temos que fazer para equacionar essa balança?

A suficiência dos recursos naturais preza pela manutenção dos recursos para as populações no presente e no futuro. Ao considerarmos um recurso, devemos ter em mente o uso deste, de modo com que todos possam usufruí-lo da forma mais igualitária possível, isso se chama justiça ambiental, que atua de modo que nenhuma parcela seja injustiçada.

Existem certas correntes ambientalistas que ou por má fé ou mesmo por uma certa ingenuidade, acreditam que a maior parte dos problemas ambientais são causadas pelos pobres. Exatamente porque, estes em situação de risco, ou seja, marginalizados da sociedade, passam a situação de relação direta com a natureza, passando a exercer atividades de extrativismo, caça e pesca, muitas vezes em Unidades de Conservação da natureza. Muitos conseguem até mesmo, fazer uma relação entre desigualdade social e exclusão social com a degradação ambiental.

Como seria se TODOS tivessem acesso a tecnologia, energia, combustíveis, bens de consumo?

Como seria se TODOS tivessem acesso a tecnologia, energia, combustíveis, bens de consumo?

Na minha opinião, isso é uma falácia verde, assim como outras tantas, como por exemplo, o mito da sustentabilidade já comentado neste blog. No artigo Do Ecodesenvolvimento ao Desenvolvimento Sustentável: evolução de um conceito? Layrargues (1997), muito lucidamente faz uma discussão a cerca do Relatório de Brundtland que coloca “a pobreza é uma das principais causas e um dos principais efeitos dos problemas ambientais no mundo”.

Neste mesmo artigo Layrargues, diz que na busca pela erradicação da pobreza, como meio de se diminuir os “problemas ambientais” causados por ela, oculta-se que os verdadeiros vilões da natureza, que são na verdade os que mais acesso tem ao consumo, ou seja os ricos: “Afinal, se hoje um indivíduo numa economia industrial de mercado, consome 80 vezes mais energia que um habitante da África subsaariana.”

Mas será que se todos os habitantes do mundo passarem a ter um padrão de consumo americano, por exemplo, o planeta daria conta de suprir esta demanda com seus recursos finitos? Se seguirmos os princípios do desenvolvimento sustentável, a economia tem que continuar se desenvolvendo, para que “sustentavelmente” todos possam ter acesso as tecnologias, energia, combustíveis, bens de consumo para que assim a pobreza diminua e a degradação da natureza também.

Voltemos a questão da finitude dos recursos, a partir da lógica da justiça ambiental, que garante igual acesso e usufruto dos recursos. Para chegarmos a uma solução equilibrada, os que consomem e assim tem mais acesso aos recursos teriam que diminuir e os que pouco consomem aumentaria seu consumo e assim teríamos justamente um equilíbrio.

Será que essa solução equilibrada segue a linha do sistema econômico dominante? Com certeza não, pois uma vez que uma das características marcantes da sociedade industrial ampliar cada vez mais o consumo…

Referência:

Layrargues, P. P. Do ecodesenvolvimento ao desenvolvimento sustentável: evolução de um conceito? (1997)

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2 opiniões sobre “Consumo infinito em um planeta finito

  1. UMA VERDADE INCONVENIENTE – ACORDA SOCIEDADE

    A Comissão Mista – Deputados e Senadores – que trata do tema “Mudanças Climáticas” volta a seus trabalhos.

    Um bom momento para destacar – o que possivelmente os membros da Comissão já saibam, mas nunca é demais relembrar – que não basta focar soluções para o enfrentamento da crise ambiental que vem preocupando a todos, pelo menos os de bom senso.

    É importante destacar que nessa Comissão o Espírito Santo está muito bem representado na pessoa do Senador Ricardo Ferraço, que já deixou muito bem clara as suas preocupações com a temática ambiental, a quem já tive o cuidado de enviar este mesmo tipo de consideração.

    Mas, efetivamente, onde reside a nossa preocupação? Ela está na base de toda a discussão, ou seja, como assegurar sucesso às ações recomendadas pela Comissão se, tudo leva a crer, a sociedade – apesar de se dizer conscientizada pela problemática das Mudanças Climáticas, ainda não mostra convicção a respeito do que deve ser feito (em conjunto ou isoladamente) de modo a contribuir para a eficácia das ações sugeridas.

    Não são muitas as pesquisas nesse sentido – estamos falando de pesquisas que acoplada à avaliação do nível de envolvimento da sociedade com a temática, também pesquisa saber o que a sociedade efetivamente “percebe” de tudo que é falado a respeito – pois as que apenas evidenciam o envolvimento da sociedade não podem ser consideradas como resposta conclusiva do nível de envolvimento da sociedade com a solução desse grave problema ambiental.

    Deste modo, infelizmente, as coisas – na teoria – ficam resolvidas. Há, porém, um problema a ser resolvido na área prática: a sociedade está preparada para assumir a sua responsabilidade (que não será pouca) na solução do problema?

    Certamente, não estamos pensando em uma sociedade totalmente politizada no sentido de assumir a plenitude da discussão do processo das Mudanças Climáticas. Como pensar nesta utopia se até os “iniciados” nessa discussão ainda se vem diante de prós e contras. Obviamente, o que se tem como objetivo é uma sociedade minimamente informada (o necessário), em condições de entender “qual é o problema”, “as soluções pretendidas”, bem como “o ônus a ser pego pela sociedade no processo de implantação de tais soluções “. Parece um conhecimento mínimo, mas efetivamente, não é.

    A nosso ver, um dos grandes focos de atenção da Comissão Mista, independentemente dos muitos outros já conhecidos, deverá ser a discussão do nível de preparo (conscientização) da sociedade brasileira frente às ações que precisam ser implantadas.

    Se pretendermos contar com a sociedade para atuar “como exército”, iniciando pelos grandes centros urbanos, em relação a “Guerra das Mudanças Climáticas”, no mínimo este exército precisa conhecer bem o inimigo e estar motivado a entrar na guerra, sabendo do custo que isso trará a cada um dos envolvidos.

    Porém, é bom que se diga, a mudança de paradigma não é unicamente um desafio para os políticos da Comissão Mista, mas, sem dúvida, de toda a sociedade, inclusive aquele segmento que ainda pode ter dúvidas com relação ao Aquecimento Global (causa) e as Mudanças Climáticas (efeitos); neste caso, conservadoramente, vale a adoção do Princípio da Precaução.

    Faça contato com o político que você elegeu; explicite a sua preocupação com o problema; temos que fazer uma grande corrente – todos os segmentos da sociedade (quem tem o poder do voto e àqueles que têm a condição de uso desse poder) de modo a evitar surpresas previsíveis.

    Roosevelt S. Fernandes
    Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental / NEPA
    roosevelt@ebrnet.com.br

  2. Pingback: Educação ambiental crítica pela democratização da comunicação #DemoCom #Eblog « Educação Ambiental Crítica

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