Compre sua “consciência tranquila”, aceitamos cartão de crédito

O que a educação ambiental crítica se propõe é ser crítica. A crítica, não é falar mal por falar, ou apenas apontar os erros de maneira leviana, é propor uma reflexão profunda pautada em argumentos. Uma educação ambiental que se pretenda crítica, deve reivindicar todo o conhecimento por de trás dos fatos, relevando “verdades” e desvelando “mentiras”, não visando contudo, construir uma nova “verdade”.

O post de hoje será baseado em uma experiência acontecida, durante uma aula do mestrado, onde estávamos em um momento de debate e reflexão, sobre qual o papel efetivo da educação ambiental crítica, que possui dentre seus objetivos principais propor uma crítica ao que conhecemos como a educação ambiental realizada de maneira mais tradicional. Esta educação ambiental, denominada também de conservadora, na maioria das vezes, desenvolve-se na realização de práticas acríticas, que culpabilizam o indivíduo e acabam sendo pautadas na implementação de ações higienizadoras.

Nesse movimento que fazíamos, lá para o meio da aula, o professor decidiu passar um vídeo provocativo, o vídeo intitula-se o “Banco da Árvore – Como neutralizar carbono?” que pode ser assistido logo abaixo:

Na minha concepção, uma educação ambiental crítica, deve além de apenas não reproduzir as práticas de uma educação ambiental conservadora, fazer a crítica também, contra a prática do greenwashing” o chamado branqueamento ecológico ou ecobranqueamento, ao consumo e a toda sorte desse tipo de engodo verde, que promete uma “consciência tranquila”, como a proposta pelo projeto do Banco da Árvore.

Vamos analisar os fatos pautando-os em argumentos? Assim desconstruiremos essa proposta miraculosa e chegaremos a conclusões interessantes. Os trechos que iremos citar abaixo, foram retirados do link onde hospeda-se o vídeo “Banco da Árvore – Como neutralizar carbono?” no YouTube. “Nós acreditamos que é possível fazer a diferença com atitudes simples em nosso cotidiano, como evitar o desperdício de água, o uso de sacolas plásticas”. Aqui percebemos o reducionismo pautado na ação individual, que não fará diferença alguma, visto que os grandes consumidores de água, por exemplo, são agropecuária 70% e indústria 22%. O consumo humano doméstico é apenas 8%, será que desligar a torneira vai mesmo economizar a água do mundo? Não estamos sendo contra essa prática, inclusive a fazemos com muito gosto, mas a proposta aqui é ir além e pensar que apenas movimentos individuais sozinhos não darão conta da questão da água.

 Vamos analisar outro trecho, que fala especificamente da proposta “Sim, você, sua família e todos nós emitimos carbono em nossas atividades diárias que contribuem para o aumento do buraco na camada de ozônio (SIC) e consequentemente para as temidas mudanças climáticas e desequilíbrios ambientais que vemos atualmente.” Até onde eu sei buraco na camada de ozônio é causado por gases CFC´s e não por Gases do Efeito Estufa (GEE). O texto é alarmista e generalista colocando que nós e nossas famílias contribuímos para o aumento do efeito estufa, outra vez entrando na culpabilização do indivíduo e não apontando também os grandes contribuintes da Emissão dos GEE agricultura, pecuária, desflorestamentos e indústrias.

Vamos ao último trecho? Neste há a explicação de como você pode comprar a sua consciência tranquila: “Neutralizar, é basicamente, plantar árvores e o Banco da Árvore presta esse serviço para você ou sua empresa. Basta inserir alguns dados em nossa calculadora e nosso sistema indica quantas árvores são necessárias para neutralizar suas emissões de carbono.” A única solução proposta para a neutralização é plantar árvores, não são dadas alternativas como, por exemplo ao invés de neutralizar reduzir a emissão de GEE deixando de consumir exageradamente, utilizar transportes coletivos, deixar o carro na garagem ou mesmo não ter carro.

Simulando as minhas emissões de CO2 em casa e com a utilização do meu carro minha emissão anual é de 3.653 kg no total. Para neutralizar essas emissões eu teria que pagar a módica quantia de R$ 422,40 para que o Banco da Árvore plantasse 24 árvores:

Simulação feita para neutralizar minhas emissões de CO2

Para finalizar, fica o sentido inicial do post, uma educação ambiental que se propõe crítica, deve reivindicar todo o conhecimento e não aceitar meias verdades. Propostas como as do Banco da Árvore, mostram apenas meias verdades, ou seja, emitimos SIM o CO2, esse gás pode ser também neutralizado, é verdade, mas o que está por trás dessa emissão? O consumo e a produção, ou seja o próprio sistema que precisa dessa engrenagem funcionando para se retroalimentar. Acreditamos que esse não ataque ao cerne da questão, não resolve, apenas promove, uma sensação de “consciência tranquila” (paga com Visa ou Mastercard).

 

 

 

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10 opiniões sobre “Compre sua “consciência tranquila”, aceitamos cartão de crédito

  1. Muito bom o post, Bárbara. Iniciativas individuais em benefício do meio ambiente são válidas, porém, convém pararmos pra pensar na “questão maior”, isto é, o sistema capitalista – o conceito do dinheiro acima de tudo e de todos, que precisa urgentemente ser combatido, levado abaixo.

    PS: Lembra-se do “Blog 100% Verde?” Ele foi reformulado, acredito que irá se interessar: http://diariodoverde.com/blog-100-verde/ Abraços!

    • Olá Antônio Gabriel,
      Pois é, esse post acabou se direcionando, além da crítica a proposta reducionista do “Banco da Árvore”, para também uma crítica para essa questão da culpabilização do indivíduo e a desresponsabilização dos outros envolvidos. A “questão maior” é na maioria das vezes negligenciada, ou mesmo omitida, mas não podemos esquecer dela.
      um abraço,
      Bárbara

  2. MInha querida xará… Adorei seu texto. Vivemos intensamente “fazendo nossa parte” quando os principais consumidores dos recursos naturais nem são mencionados, e a “parte deles” ainda não é de fato feita. Gostei da brincadeira e resolvi ir até o site. Descobri que minha consciência tranquila equivale o plantio de 2 árvores e a módica quantia de R$35,20, que poderei pagar até no boleto. Mais barato e simples. Fecharei os olhos para realidade e seguirei minha vidinha feliz….Ou não!

    • Olá Xará,
      Que bom que gostou do texto, como vimos não basta fazer nossa parte, todos tem que estar envolvidos, mas isso nem sempre acontece. Quanto ao “Banco da Árvore” ai, ai… Parece piada não é?
      um abraço,
      Bárbara

  3. Pra variar Bárbara, excelente artigo!
    Bom, você já disse tudo aí, concordo plenamente contigo.
    A culpabilização do indivíduo é uma tendência que surgiu desde a falácia mal resolvida do “aquecimento global”. Mercadologicamente falando é muito mais viável “economicamente” culpar o indivíduo do que submeter as empresas ao tripé da tal sustentabilidade. Por enquanto estão utilizando os velhos modelos econômicos para continuar lucrando, ou seja, nada mudou e não vai mudar tão cedo (a não ser que uma crise econômica global leve a isso).
    Fala-se muito de sustentabilidade, mas como sabemos, distorcem o conceito ou usam apenas a perna ambiental do tripé, a mais lúdica e emotiva.
    Pra finalizar, quero parabenizar pelo que disse no início da postagem, sobre “crítica”. Muitos dos meus parceiros e leitores falam que critico demais, mas acredito que não estou errado. Enquanto as pessoas baixarem a cabeça – por falta de informação – e não aprenderem a questionar, não terão o direito sequer de reclamar dos problemas que virão por aí.
    Continuaremos fazendo nossa parte.
    Forte abraço!

    • Olá Coluna Zero (Bruno),
      Obrigada pelo comentário, pois é, culpar o indivíduo é mais fácil que mostrar TODA a realidade: Fato. Por esse motivo é necessário, que sejam colocados todos os pontos, e não apenas os que interessam. A “crise” socioambiental é lucrativa, estão ai os mercados de carbono para os grandes países poluidores e os bancos das árvores para as pessoas. O conceito de sustentabilidade, para mim nem foi distorcido, ele já nasceu torto mesmo… Pois na sociedade do capital, é difícil imaginar um uso sustentável da natureza, pois a lógica é outra. E vamos a crítica e continuemos na crítica, pois deconstruir é necessário e às vezes é a única solução. Vamos fazendo nossa parte!
      um abraço,
      Bárbara

  4. É muito mais fácil reforçar esse discurso simplista que quer “promover uma consciência ambiental”, nos culpabilizando sobre os problemas ambientais do que mexer nos reais motivos que os causam.

  5. Oi Barbara,
    É Marcio Douglas, seu colega do mestrado. Adorei seu blog é criativo, crítico, muito bem arrumado, trabalho de profissional. Estamos juntos nessa. Por uma educação ambiental questionadora.

    Beijo.

    Marcio

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