Educação ambiental crítica: O contraponto necessário a hegemonia da educação ambiental conservadora

Esse post surgiu da necessidade da reflexão de quantos campos de disputa, existem dentro do que comumente chamamos de educação ambiental. Provavelmente em uma área de complexa formação social, existem sem dúvida algumas “educações ambientais” as quais tentaremos definir aqui, dentro da perspectiva delas serem ou não hegemônicas, e em relação as suas vertentes político-pedagógicas, epistemológicas e ideológicas. Ao final, tentaremos pontuar, as principais características da educação ambiental, em que se baseiam, ou ao menos tenta se basear, as reflexões desse blog, a educação ambiental crítica.

A busca de uma delimitação dentro do campo da educação ambiental não é simples, pois não há ainda um consenso de quais e quantos tipos diferentes podem ser delineados, quando se fala em educação ambiental. Estaremos nos baseando em alguns autores para classificar essas vertentes, ou pelo menos tentar dentro do que temos de produção acadêmica até então.

Guimarães (2004) classifica em duas, as vertentes dentro da educação ambiental, a educação ambiental tradicional (por vezes chamada também de conservadora), que segundo o mesmo autor defini-se por ser hegemônica, e possuidora de uma visão mecanicista da ciência, simplificadora dos fenômenos complexos da realidade, além de não poder ou não querer revelar as relações de poder que estruturam a sociedade atual (luta de classes, relações de gênero, identidade, minorias étnicas e cultuais, relação norte-sul). Na concepção de Guimarães, esta educação ambiental tradicional, não tem potencial de alavancar as mudanças necessárias para a superação da atual crise socioambiental. Ele define então a educação ambiental crítica como contra-hegemônica, com a característica de ser interdisciplinar relacionada com a teoria da complexidade e com o objetivo de desvelar as relações de dominação que constituem a atual sociedade, sendo esta, uma proposta que pode e deve fazer um contraponto em relação ao que vem sendo realizado como o que identificamos como sendo a educação ambiental conservadora.

Layrargues e Lima (2011) mapeiam as macro-tendências político-pedagógicas que assume a educação ambiental brasileira. Segundo os autores, no inicio de seu surgimento (antes dos anos de 90 do séc. XX) como campo da educação, a educação ambiental caracterizava-se por ter ser conservacionista, ou seja, a educação ambiental conservacionista possuía como objetivo despertar a sensibilização ecológica dos envolvidos num lema bastante conhecido “conhecer para amar, amar para preservar”. Essa maneira inicial de se pensar e realizar a educação ambiental encontra-se fortemente relacionada ao movimento ambientalista surgido nos anos 70 do século passado. Após os anos 90, nota-se o esvaziamento da vertente conservacionista, e o surgimento de uma educação ambiental crítica, cujo objetivo era a realização de um contraponto com a educação ambiental conservacionista e a educação ambiental pragmática, cujo viés dava continuidade a educação ambiental conservacionista, mas com o foco em ações realizadas em um ecossistema urbano, como por exemplo, as atividades de coleta seletiva de lixo.

Seguindo a definição de Layrargues e Lima (2011), educação ambiental conservacionista e educação ambiental pragmática são conservadoras, pois, ambas contemplam “o predomínio de práticas educativas que investiam em crianças nas escolas, em ações individuais e comportamentais no âmbito doméstico e privado, de forma ahistórica, apolítica, conteudística, instrumental e normativa não superariam o paradigma hegemônico que tende a tratar o ser humano como um ente genérico e abstrato, reduzindo os humanos à condição de causadores e vítimas da crise ambiental, desconsiderando qualquer recorte social.” (p. 7). De acordo com os mesmo autores, a educação ambiental crítica é a vertente capaz de realizar um contraponto em relação essas duas anteriores.

O que vem a ser então a educação ambiental crítica (por vezes reconhecida também como emancipatória, transformadora, popular e/ou ecopedagógica)? A educação ambiental crítica, tipicamente brasileira, surge da educação popular de Paulo Freire e da pedagogia crítica, que tem seu ponto de partida na teoria crítica marxista e neomarxista de interpretação da realidade social. Associa também discussões trazidas pela ecologia política que insere a dimensão social nas questões ambientais, passando essas a serem trabalhadas como questões socioambientais.

Nesse sentido, a educação ambiental que se propõe crítica, tem alguns objetivos essenciais, como por exemplo, realizar a crítica a educação ambiental conservadora, desvelando o quanto suas práticas ingênuas e/ou reprodutoras de ideologias do sistema dominante, impedem a percepção real das causas dos problemas socioambientais. É objetivo também da educação ambiental crítica, analisar a partir de uma visão socioambiental, política e econômica que “o problema da ecologia é real já há algum tempo, ainda que evidentemente, por razões inerentes à necessidade do crescimento capitalista, poucos tenham dado alguma atenção a ele.” (MÉSZÁROS, 2002, p. 988). Ou seja, evidenciar que é o “modus operandi” do próprio sistema do capital, que é o causador dos pretéritos e atuais problemas socioambientais.

Assim sendo, cabe a educação ambiental crítica, também o papel de ser uma educação ambiental politizada, problematizadora, questionadora, integrada aos interesses das populações e das classes sociais mais afetadas pelos problemas socioambientais. Embora o assunto não se esteja esgotado, acredito que o objetivo inicial do post foi atingido, ou seja, evidenciou que possuímos dois grandes blocos político-pedagógicos, epistemológicos e ideológicos dentro da educação ambiental, um hegemônico e conservador e outro contra-hegemonico, a educação ambiental critica, que é a que nós nos embasamos para realizar nossas reflexões aqui no blog.

Para ilustrar esse fim provisório em relação ao assunto, coloco uma figura bem interessante, que ilustra a educação ambiental que não desejamos, a educação ambiental conservadora, que por exemplo, ensina a realizar a separação dos tipos de lixo,na chamada coleta seletiva de lixo, mas não a entender a complexidade e a verdadeira origem dos problemas socioambientais…

É essa a educação ambiental que não desejamos

Referências:

GUIMARÃES, M. A formação de educadores ambientais. Campinas, SP: Papirus (Coleção Papirus Educação) 2004, 171 p.
LAYRARGUES, P. P. ; LIMA, G. F. C. . Mapeando as macro-tendências político-pedagógicas da educação ambiental contemporânea no Brasil. In: VI Encontro Pesquisa em Educação Ambiental, 2011, Ribeirão Preto. VI Encontro Pesquisa em Educação Ambiental: a pesquisa em educação ambiental e a pós-graduação. Ribeirão Preto : USP, 2011. v. 0. p. 01-15.
MÉSZÁROS, I. Para além do capital. Campinas/SP; Boitempo, 2002.

 

 

 

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10 opiniões sobre “Educação ambiental crítica: O contraponto necessário a hegemonia da educação ambiental conservadora

  1. Excelentes reflexões! É bem por aí que penso que devemos mesmo caminhar. Por mais que uns digam que separar os educadores ambientais enfraqueça o campo, penso que isso é necessário. Sem essa distinção, não é possível auxiliar o povo, as classes trabalhadoras, em suas lutas contra a expansão e acumulação do capital, a intensificação e precarização do trabalho, a exploração, a extração de mais-valia e as expropriações de vários tipos. Os pragmatas da EA ao difundirem a crença nas tecnologias verdes, na mediação dos conflitos sociais e na ampliação dos canais da democracia (burguesa), em suma, na “humanização” do capitalismo, não objetivam a superação deste modo de produção que tem inúmeras consequências, marcadamente distintas de acordo com as classes e grupos sociais mais responsáveis e mais afetados pelo desenvolvimento capitalista. Um outro desafio que vejo necessário é verificarmos que muitos dos que se dizem educadores ambientais críticos adotam pressupostos e ações conservadoras, não objetivando superar o capitalismo (inverter a correlação de forças no Estado e, posteriormente, destruir o Estado, abolindo as classes sociais), sendo críticos apenas de modo retórico. No mais, parabéns pela sua iniciativa!
    Abraços!

    • Leonardo,
      Pois é, foi a partir das suas questões (que acabei perdendo quando apaguei o tópico da pesquisa), que senti a necessidade de realizar essa reflexão em forma de post. No entanto, concordo com você quando diz que, que dentre aqueles que se dizem críticos, há aqueles que ainda em suas práticas caem no conservadorismo, o Prof. Dr. Mauro Guimarães chama isso de “armadilhas paradigmáticas”. Nem sempre o fazem por mal, mas por ainda trazerem forte a influencia conservadora que é mais difundida e hegemônica, acredito que para isso temos que estar sempre refletindo sobre a nossa práxis, para não cairmos nessas “armadilhas”.
      um abraço,
      Bárbara

  2. Acredito que há certa tendência (também implícita no texto) de querer categorizar, privilegiar e excluir as diferentes formas de expressão da Educação Ambiental.
    Toda forma de trabalho nesse sentido é válida, desde que bem estruturado e, o mais importante, dirigido para o público certo.
    A Educação Ambiental deve permear toda a Educação Básica, por exemplo. Nesse sentido, estamos falando de crianças em fase de alfabetização (até o 3o ano, segundo o MEC) até o final do Ensino Médio.
    O trabalho com as crianças, claro, deve ser diferente do realizado com os adolescentes, que já tem habilidades de leitura, interpretação da realidade e crítica mais desenvolvidos.
    Deve existir sim uma gradação nas práticas de Educação Ambiental, partindo de um viés mais afetivo (de conexão ou reconexão) com a natureza e gradualmente acentuando-se um viés mais cognitivo (mas também sem abandonar o afetivo).
    Se pensarmos dessa forma… na realidade, se pensarmos menos como adultos e mais como crianças e adolescentes, todas as linhas de Educação Ambiental são válidas e podem desempenhar bem seu papel de construção de um indivíduo que ama a natureza, compreende sua importância, é capaz de intervir no mundo ao seu redor, é político e crítico.
    Precisamos parar de pensar na Educação Ambiental de forma estanque e sim como projeto de longo prazo, onde todas as linhas de pensamento possuem sim sua contribuição.

    Um abraço
    Edson G.

    • Olá Edson,
      Acredito que a tentativa que fiz no texto, não foi de categorizar uma educação ambiental em detrimento da outra e sim, tentar identificar as principais vertentes que temos no Brasil. Claro que, em virtude da minha filiação com a vertente que se propõe crítica, pode parecer, e ás vezes eu tenho que tomar o maior cuidado com isso, que para mim, as outras formas de expressão da educação ambiental não são válidas. Não sou contrária as práticas conservacionistas e/ou pragmáticas, no entanto a minha crítica é quando estes são somente ponto de chegada e não de partida para reflexões mais profundas.
      A partir do que você colocou, concordo que cada idade tem um desenvolvimento cognitivo e que a educação ambiental deve ser feita em longo prazo, permeando todas as fases da educação formal e informar. Pensar de maneira estanque é meio segregador, mas em alguns momentos creio que esta reflexão de quais vertentes existem e quais são seus seus limites e potencialidades pode ser interessante, para pensarmos em um todo posteriormente.
      Um abraço,
      Bárbara

  3. O post, como vc disse, está curto mas está muito esclarecedor e pontua objetivamente o que se passa com a educação ambiental. No entanto, o que vejo é que a menor parte realiza a educação ambiental crítica, assim com a pedagogia crítica, afinal surge muito mais trabalhosa e com muitos contrapontos, principalmente quando realizada dentro da escola tradicional.
    Continuemos a desenvolver, pesquisar e disseminar a educação ambiental crítica.
    Abraços,
    Juliana.

  4. Bárbara, adorei a sua reflexão, muito lúcida. Se você quiser publicá-la também em nosso Blog socialistalivre, seria um prazer. Mande-nos o texto com sua referência, inclusive de seu Blog para nosso mail: socialistalivre@gmail.com que eu divulgo por lá. Grande abraço, Gílber.

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