Paz verde

Há algum tempo aqui no blog, tive a ideia de analisar uma letra de música interessante do ponto de vista das relações de consumo, chamada Bolsa de Grife da Vanessa da Mata. Além de prazeroso o processo de escrever o post, este me rendeu alguns elogios e incentivos.  Apesar de ter gostado bastante de realizar essa análise, essas coisas não acontecem toda hora, pois eu não ouço música pensando em escrever  posts…

No entanto recentemente, revisitando algumas músicas de uma banda antiga que eu ouvia quando era mais nova, tive novamente uma ideia de analisar uma música. A música Paz Verde provavelmente é pouco conhecida e o estilo Hardcore (HC) da banda Dead Fish talvez não seja tão palatável como a baladinha da Vanessa…

O estilo é rápido (HC), a letra ácida e de uma crítica profunda aos grandes movimentos ambientalistas internacionais… Inclusive o título da letra “paz verde”, faz uma alusão direta a um dos maiores e mais conhecidos, basta a traduzir para o inglês que você entenderá (sim é esse mesmo que você pensou). Deixando de lado algumas generalizações contidas na letra, a crítica revela um pensamento que pode não ser de todos os integrantes destas organizações, mas que evidencia uma ideologia construída com o objetivo criar movimentos de conservação ambiental, principalmente em países pobres.

Vejamos alguns trechos que colocam essas ideias: “aquele povo, aquela gente, pulmão do mundo, tudo que sobrou. Destroem por maldade os imbecis  […] Vamos criar uma instituição, uma instituição nacional pois o verde queremos salvar.” Forte não? Mas analisemos…  Podem não ser todas (mais uma vez vamos ser cautelosos), mas algumas dessas instituições possuem a concepção de que os países pobres, não conseguem dar conta dos seus problemas ambientais  e se colocam  como indispensáveis para evitar a degradação ambiental (pois não sabemos fazer isso aqui sozinhos).

E a letra prossegue com a fala das organizações “Não me venha com retórica terceiro mundista seu incompetente miscigenado, a culpa não é do capital! O meu império ecologista sabe lucrar”.  A perda do foco dos problemas socioambientais, que tem como origem a própria dinâmica exploratória do sistema do capital e a oportunidade de lucro com a questão verde, também são atacadas na letra.

Ao final  é apontada uma contradição:  Se é dos países ricos  a origem da maioria dessas grandes instituições e de lá também as origens do sistema do capital,  como que eles se acham no direito de intervir em algo que eles mesmos construíram? Afinal,  “Foi você que nos ensinou  a comprar,  a vender e a lucrar!!”  Mesmo que para isso seja devastados todos os ecossistemas do mundo…  Vai a letra na integra e abaixo o vídeo:

Paz Verde – Dead Fish

Enquanto o índio e o povo são massacrados

por todo mundo se vociferou

aquele povo, aquela gente,

pulmão do mundo, tudo que sobrou.

Destroem por maldade os imbecis.

São o próprio diabo de nossa religião, malditos pobres.

Malditos imundos que não sabem lucrar,

pedem dinheiro pra se endividar.

Vamos criar uma instituição,

uma instituição nacional pois o verde queremos salvar.

Paz verde!!

Hipocrisia mundial!!

Seus bancos a cobrar,

meu povo a morrer…

Não me venha com retórica terceiro mundista

seu incompetente miscigenado,

a culpa não é do capital!

O meu império ecologista sabe lucrar,

sabe vender e o que é melhor,

a selva foi internacionalizada.

Índio iludido pensou que fosse melhorar,

todas as bandeiras (do G7) estavam lá!

Mas o que se viu foi mais uma divisão,

índios tiveram que financiar suas ocas em bancos silvestres.

Paz verde!!

Hipocrisia mundial!!

E o FMI?

E os juros a pagar?!

Talvez se não tivéssemos sido colonizados

e se tivessem deixado o índio em paz….

mas depois desta retórica suja, sectária e desumana,

foi você que nos ensinou

a comprar,

a vender

e a lucrar!!

Paz verde!!

Hipocrisia mundial!!

Vocês a consumir

e nós a produzir….

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4 opiniões sobre “Paz verde

  1. Olá, parabéns pela iniciativa. Tenho trabalhado a música Absurdo da Vanessa da Mata com muito sucesso. De repente vc poderia dar uma analisada tb. Virei fã do seu blog.

    • Olá Bruno,
      Sim conheço essa música também, já fiz um trabalho de um curso com ela. Vou aceitar a sua sugestão e fazer uma análise dela também!
      Obrigada pela visita e continue voltando sempre!
      abs,
      Bárbara

  2. Olá Barbara, mais uma vez não posso poupar elogios, essa você foi longe! adorei trazer a proposta do Dead Fish, nem sabia que eles eram politizados assim (seria preconceito?!), de qualquer forma, achei uma ótima letra com muitos pontos a serem discutidos, dentro e fora de sala de aula, ainda mais agora para acontecer a Rio+20, apesar de muitas pessoas acreditarem no evento…que infelicidade.
    Abraços e parabéns!

    • Olá Juliana,
      O Dead Fish tem sim muitas letras politizadas, mas algumas nem tanto, rs. Obrigada pelo comentário, fui longe mesmo no resgate dessa letra, mas que sirva de alerta, principalmente às vésperas da “Grande Conferência”, que também acredito não irá trazer grandes mudanças. Vamos acompanhar mais um momento de construção ideológica com a apresentação (imposição) da economia verde e rascunho zero, mas nada que vá mudar o establishment.
      um abraço,
      Bárbaba

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