Cidade limpa, povo civilizado?

Dia desses, numa atividade de educação ambiental com estudantes de um colégio estadual situado na baixada fluminense (Rio de Janeiro), realizamos uma caminhada no entorno da comunidade na qual o colégio se insere, e durante essa caminhada pude perceber algo que alguns autores vêm propondo, e que eu como educadora ambiental e pesquisadora na área também concordo: de como a educação ambiental se mal encaminhada, ou seja, se realizada de maneira conservadora, pode internalizar os valores do sistema, servindo como instrumento de reprodução e dominação social.

Minha reflexão partiu de uma frase em um portão “Cidade limpa povo civilizado”. A mensagem poderia ser até exaltada como uma posição crítica, no entanto, a julgar pela comunidade em que se situa o LT 1 e 2 de uma rua em uma comunidade pobre, a mensagem soou, pelo menos para mim, de maneira incomoda, pois, caminhando aproximadamente uns 10 minutos bairro adentro, nos deparamos com a seguinte cena:

Ruas desprovidas de calçamento e falta de saneamento básico, um cenário bastante conhecido de descaso com as tradicionalmente abandonadas comunidades pobres que se encontram em maior vulnerabilidade socioambiental.

O que pode explicar tal dificuldade de percepção dos moradores dessa comunidade (pelo menos de quem escreveu a mensagem no portão) que afirmam que uma cidade limpa depende de um povo civilizado, mas que não se admira (ou se revolta) de não haver saneamento básico numa rua ao lado da sua? Para além da revolta que povo civilizado é esse que não se coletiviza para organizadamente requerer condições mais dignas e humanas juntos aos gestores públicos municipais?

Uma explicação plausível é que a partir do modo com que se constrói a reflexão dentro desse contexto pedagógico conhecido como educação ambiental, quase sempre se desenvolve de maneira acrítica, levando a reprodução de elementos sociais que ao invés de questionar a base causal dos problemas socioambientais, reproduz alguns valores para se manter a ordem do sistema social vigente, como, por exemplo, a de que um povo civilizado é responsável pela manutenção da cidade limpa… E só.

Essa visão além de limitada e higienista, culpabiliza o cidadão e em nenhum momento questiona as responsabilidades dos atores governamentais pela omissão de um direito elementar, como, por exemplo, o saneamento básico.  Acreditamos que uma educação que se limita a reproduzir a ordem social vigente, internalizando os valores de dominação social serve somente aos interesses dominantes, e que não tem como objetivo a emancipação social.

Essa educação ambiental conservadora está a serviço da perpetuação da ordem social alienante do capital, e em geral, servirá e transmissão de valores que legitimam o quadro dominante, ou seja, será um instrumento de internalização de valores de dominação social. “Enquanto a internalização conseguir fazer o seu bom trabalho, assegurando os parâmetros reprodutivo do sistema do capital, a brutalidade e a violência podem ser relegadas a segundo plano” (Mészáros, 2008 p. 44). A brutalidade de uma realidade inóspita, onde pessoas vivem sem tratamento de esgoto e em situação de exclusão de seus direitos básicos.

E de que lado nós estamos? Com certeza do lado oposto a essa perspectiva que reproduz, mas sim da que tem por objetivo a emancipação. Acreditamos que uma educação ambiental crítica deve revelar essas relações intrínsecas do sistema que causam degradação socioambiental e a alienação através dos meios de reprodução. Estamos do lado de uma educação ambiental que irá discutir prioritariamente as responsabilidades dos atores sociais governamentais que se omitem de sua ação, por exemplo, na criação de políticas publicas para o bem estar social.

Referências:

MÉSZÁROS, I.  A educação para além do capital.  Tradução Isa Tavares. 2ª Ed. São Paulo: Boitempo, 2008.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s