Estamos em greve!

As duas maiores redes de educação pública do Rio de Janeiro, que dão conta de grande parte do ensino básico, no município e no estado do Rio de Janeiro estão em greve. Eu dou apoio, total e irrestrito a greve da rede municipal, até porque, é que sofreu a maior arbitrariedade com a votação a fórceps de seu plano de cargos e salários numa câmara municipal, sem a possibilidade democrática da presença dos profissionais da educação dentro da câmara dos vereadores e com forte repressão policial do lado de fora na Cinelândia. No entanto, eu sou e estou em greve pela rede estadual, cabe lembrar que a rede estadual está em greve desde o dia 8 de agosto, e com uma adesão menor do que a da rede municipal. 

Em greve: A rede estadual de educação está em greve desde 8 de agosto

Talvez a rede municipal tenha ficado longos anos sem realizar um movimento de greve e esse fator fez com que houvesse uma participação maior dos professores, do que na rede estadual. Mas voltemos a rede estadual de educação.  Um professor que trabalha no estado ganha inicialmente para 16h de trabalho semanal, um salário de R$: 1.071,95 (com os descontos diminui um pouco)… Percebo a rede estadual mais sucateada que a municipal, quem nunca ouviu a frase “ah, no estado o salário é sempre menor”…  A pergunta que fica é como o estado, que teoricamente teria mais dinheiro do que o município, paga menos aos seus professores?

Esses baixos salários e condições de trabalho ruins levam a altos índices de exoneração dos professores no estado. Segundo cálculos do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (SEPE), baseados em informações dos diários oficiais, indica que 991 professores pediram para sair da rede estadual entre julho de 2012 e julho de 2013, uma média de, pasmem, 2,7 exonerações por dia. Já o governo do Rio de Janeiro, diz se orgulhar de pagar um dos maiores salários para os docentes, pois um estudo feito pela Agência de Conteúdo Cartola/site Terra, em abril de 2013, mostra que o estado do Rio de Janeiro tem o melhor vencimento entre as redes estaduais de ensino do Brasil (conseguem imaginar o pior?).

No estado sofremos além da baixa remuneração, uma imposição de um sistema meritocrático absurdo implantado pela Secretária de Educação, que geram pesadas cobranças da direção da Unidade Escolar (que não foi eleita democraticamente) para melhorarmos o desempenho dos estudantes em uma rede de educação extremamente desigual, com “escolas modelo” que tem parcerias com instituições privadas (Oi, Instituto Airton Senna, TKCSA…) e outras que praticamente estão caindo aos pedaços.  O Sistema de Avaliação da Educação do Estado do Rio de Janeiro (SAERJ) é quem avalia esses estudantes e de acordo com o desempenho deles, alguns são premiados com computadores e os professores dessas escolas, com um bônus no final do ano, o 14º salário. É a escola funcionando como uma empresa, querendo bater metas, não vê mais os professores discutindo estratégias pedagógicas de como melhorar o ensino de seus estudantes e sim estratégias para bater as metas do Governo.

Há outras coisas controversas na rede publica de educação do estado. Existem empresas privadas que são contratadas para fornecerem pessoal para fazer a refeição dos estudantes, vigias, porteiros e secretários, já que recentemente o governador extinguiu esses cargos nas escolas estaduais.  Quanto se gasta para contratar uma cozinheira? Quais os critérios de seleção de um porteiro? Quem são os donos dessas empresas que fornecem esse pessoal de apoio? Percebam que há uma estreita relação de troca de favores políticos e empregatícios  no funcionamento dessas empresas nas escolas, mas ainda não para por aí…  O privado se apropriando do publico na rede estadual de educação. Há aparelhos condicionadores de ar sendo alugados mensalmente por R$: 950,00 (quase o que ganha um professor em início de carreira), de uma empresa talvez tão sem escrúpulos quanto aquela que fornece pessoal para aos cargos extintos nas escolas estaduais. Há computadores que foram comprados para serem utilizados em sala de aula, que nunca foram utilizados, há salas de informática inacessíveis aos estudantes, e bibliotecas onde se tem pouco acesso aos livros, quando se há bibliotecas. Enfim, eu poderia ficar aqui lembrando inúmeros pontos para colocar aqui e que caracterizam bem as mazelas da rede estadual de educação do Rio de Janeiro, mas as que eu lembrei no momento foram essas.

Ontem houve uma grande movimentação em prol da educação como eu nunca vi antes, custo a acreditar que a sociedade civil tomou a causa para si (será?), pois, sempre que estávamos em greve (no estado o movimento de greve é mais contínuo que no município) o máximo que ganhávamos era um “tapinha” nas costas de apoio e uma chuva de papel picado pela janela quando, em passeata, atravessávamos alguma avenida no centro da cidade.  Estamos em greve! A greve seguirá e nós também, até quando a categoria decidir. O movimento de ontem revigora um pouco a nossa força e afasta parcialmente a angústia e o cansaço. Talvez um apoio maior que o de ontem (07/10/2013) na próxima manifestação marcada para o simbólico dia 15 de outubro, dia dos professores, possa abrir os canais de diálogo com os governos municipal e estadual que se recusam a negociar conosco. No mínimo esse movimento já é vitorioso, pois, desde que entrei no magistério, nunca vi a sociedade civil aderir assim tão de corpo presente a causa dos professores, é um pequeno passo, mas um passo importante, e com certeza só foi possível após os movimentos populares de junho de 2013.

Sociedade civil apoia a educação no “um milhão nas ruas pela educação”

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2 opiniões sobre “Estamos em greve!

  1. Pois é, Bárbara… estou em greve pelo município também desde 8 de agosto, com uma semana de volta às escolas pensando que o prefeito nos ouviria e cumpriria suas promessas… Triste situação em ambas as redes. Mas a rede municipal está tão sucateada quanto a estadual. também temos muitos funcionários terceirizados e as parcerias com empresas privadas que tomam de assalto a autonomia pedagógica são inúmeras. A política meritocrática também nos atinge, com a instituição do 14º salário para as escolas que batem as metas, e querem comparar as escolas modelo (Ginásio Experimental Carioca – GEC), onde todos os recursos existem e os alunos são escolhidos a dedo, com outras caindo aos pedaços que têm que aceitar os alunos que não serviram para estudar nos GECs. Já são dois meses… mas a luta continua!

    • É Bianca, as duas redes tem seus problemas, que no final tem as mesmas causas: Baixos salários, condições de trabalho ruins, meritocracia, parcerias público-privada, sucateamento da educação pública e muita intransigência dos governos que não querem negociar com os profissionais da educação…

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