Dia mundial sem carro e outras campanhas comportamentalistas


Essa foi a nossa colaboração para a Rede EBC – Empresa Brasileira de Comunicação, sobre o “Dia mundial sem carro”, leia a reportagem colaborativa na íntegra em: Dia Mundial Sem Carro: veja relatos de quem curte e de quem não gosta da ideia. Segue abaixo do trecho em que eu comento:

Minha opinião em relação à campanha do “Dia mundial sem carro” é ela ser comportamentalista demais, pois percebo apenas a proposta de não se usar o carro, mas pouca reflexão sobre essa e sobre outras questões Continuar lendo

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Novo Código Florestal: Licença para desmatar


É com esse trocadilho presente no título do post, que pretendo iniciar minha análise. Tenho o objetivo de tentar nortear, através de uma visão mais multifacetada possível, no entanto, não isenta de uma opinião pessoal, mas incluindo além do meu posicionamento algumas informações que eu vim colhendo ao longo de todo esse tempo que se estendeu a “novela” da votação do Novo Código Florestal.

Ontem, dia 24 de Maio, como todos bem sabem ocorreu a aprovação do relatório, diga-se de passagem não científico, do deputado relator Aldo Rebelo (PCdoB–SP) na Câmara dos Deputados. Esse relatório (projeto de Lei 1876/1999, de alteração do Código Florestal do Brasil), que visava a alteração do Código Florestal Brasileiro, Lei 4771/1965, teve aprovação significativa, totalizando 410 votos a favor, 63 contra e 1 abstenção.

Uma das primeiras críticas que podemos fazer é que o relatório de Aldo não é cientifico, e isso foi denunciado por vários pesquisadores da área ambiental, ecólogos, pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pelo próprio Alceo Magnanini, engenheiro agrônomo de 85 anos, responsável em 1965, juntamente com a participação de outros pesquisadores, pela autoria do Código Florestal. Em entrevista a Folha de São Paulo, Magnanini afirma que “o relatório do deputado Rebelo é um atentado à soberania nacional”.

A questão principal que devemos ter em mente é: Por que aprovaram um Novo Código Florestal se o antigo era ambientalmente mais conservacionista? Não há duvidas que em pleno século XXI, é anacrônica a aprovação de uma Lei que anistiará desmatadores e suas infrações em relação ao deflorestamento de ecossistemas nativos, com consequente redução de áreas de relevante interesse ecológico e social, e que inclusive não exigirá a recuperação dessas áreas desmatadas indevidamente, inclusive nas Áreas de Proteção Permanente (APPs) localizadas em topos de morro, encostas e beiras de rios.

Há um interesse em que se flexibilize esta Lei de proteção ambiental, principalmente pelos empresários do agronegócio, que em sua maioria plantam soja para exportação para alimentação do gado europeu, cana de açúcar para produção do álcool (biocombustível) e para que se aumentem as extensas áreas de criação de gado. Ao contrário do que Aldo Rebelo dizia, que a lei não tinha por interesse beneficiar os pequenos produtores ou termos ampliação da fronteira agrícola, para uma enganosa “segurança alimentar”, ou seja, produção de mais alimento para a população brasileira.

Numa bancada composta em sua maior parte por representantes dos ruralistas, ou por deputados com pouco conhecimento das implicações de uma flexibilização de uma legislação ambiental ou mesmo parlamentares regidos por interesses espúrios… Ignorou-se todo apelo feito pelos pesquisadores, pela sociedade civil, ONGs e movimentos socioambientais, contrários as alterações, e o temido aconteceu. Inclusive numa perspectiva pior do que a imaginada, pois além do relatório, foram aprovadas emendas, dentre elas a mais polêmica, a emenda 164, que permite a continuidade das atividades agrícolas nas APPs, autoriza os Estados a participarem da regularização ambiental e a anistia os desmatadores que dilapidaram os ecossistemas brasileiros.

Após a aprovação na Câmara, o projeto de Lei será encaminhado ao Senado Federal, e posteriormente para a sansão ou veto da Presidenta Dilma… Acredito que não teremos surpresas e que a decisão permanecerá, com a vitória da alteração do Novo Código Florestal. No entanto, acredito que a revelia dos princípios democráticos e éticos, baseados no interesses e influencias de alguns grupos, não trará benefícios econômicos e nem ambientais. O que pode parecer bom em curto prazo irá permitir impactos que, em médio e longo prazo inviabilizarão a continuidade do próprio agronegócio.

Com a intensificação do desflorestamento, a intervenção direta nos cursos de água com a retirada de mata ciliar, e a ocupação em topos de morro, a dinâmica ambiental será extremamente prejudicada, e isso terá direta influência na própria produtividade das culturas agrícolas e pastos de gado. Esqueceram de dizer aos produtores que a natureza se auto-sustenta ciclicamente, e se algo neste ciclo faltar ele não se completa. Em médio prazo os riscos ambientais como, por exemplo, a desertificações, improdutividade de terras férteis, erosão do solo, assoreamento dos rios, destruição de mananciais de água, aumento da emissão de gases estufa, deslizamentos de áreas em topos de morro, não terão valido o lucro da não conservação dos ecossistemas.

Daí valerá a frase que pode ser usada com muita pertinência em situações como essa “A natureza não se engana nunca; somos nós que nos enganamos” de Jean-Jacques Rousseau.

Aproveito o final desse post, para homenagear a memória de um líder ambientalista do Pará, o José Cláudio Ribeiro (Zé Cláudio) da Silva e sua esposa Maria do Espírito Santo da Silva, que ontem foram assassinados. Graças às denuncias de Zé Cláudio, conhecido como símbolo de luta pela castanheira, pelo menos 10 serrarias foram fechadas em 2010, no entanto, sua voz foi silenciada, tristemente no mesmo dia, em que na minha opinião aconteceu um grande retrocesso em relação a defesa do ambiente.

Blog EA Crítica 1 ano


O blog EAcrítica completa hoje em 24 de Abril, um ano de divulgação de ideias críticas e autorais sobre o tema da educação ambiental. Há aproximadamente uns três anos, quando comecei a estudar e trabalhar com esta temática, percebi que algumas “coisas” que intitulam de educação ambiental, na verdade não eram educação ambiental… E isso me levou a uma intensa inquietação.

Foi através dessa inquietação seguida de uma busca, mque conheci a educação ambiental, em sua vertente mais crítica, onde entendi que este processo não deve ser realizado com vem sido feito pela maioria. A educação ambiental é antes de tudo um processo de reflexão profunda que leva a uma conscientização, de cada envolvido no processo e não pode ser realizada da maneira ingênua e trivial… Isto é, quando ela é feita, pois às vezes nem o básico acontece.

Voltando um pouco na história, sou professora de ciências e biologia e desde ano de 2009 iniciamos um projeto de criação Espaço Livre de Organização de Ações Sócioambientais no Colégio Estadual Yonne Maria Siqueira de Andrade, onde eu leciono. Esse projeto de Educação Ambiental teve como objetivo realizar um diagnóstico socioambiental, para conjuntamente construirmos a nossa Agenda 21 Escolar, que seria o ponto de partida para a implantação de projetos socioambientais no Colégio.

Entre erros e acertos conseguimos chegar pelo menos a construção da nossa Agenda 21. Por razões fundamentalmente institucionais, o trabalho foi se esvaziando e não conseguimos (infelizmente) dar continuidade ao projeto, que tinha um caráter de ser permanente… Pude mais uma vez perceber o quando a educação ambiental não pode ser feita apenas pela vontade de uma pessoa, mas pelos esforços coletivos do todo.

Não me abati e logo ingressei neste projeto do blog EAcrítica. A ideia surgiu, após perceber a carência que temos de divulgação cientifica de ideias sérias sobre educação ambiental, principalmente a educação ambiental crítica que é muito pouco conhecida. Se eu disser que existem milhares de blogs e sites que pegaram esse mote ambientalista e de educação ambiental eu não estaria mentindo. No entanto, vejo pouco de criação autoral ou mesmo de divulgação de ideias cientificas e acadêmicas sobre o assunto. Assim, aproveitando este vácuo e diante da necessidade de divulgar estas ideias, criei o blog.

Tenho uma visão de que a Educação Ambiental deve ultrapassar práticas isoladas e pautadas apenas em mudanças atitudinais. A sua prática deve estimular a formação do cidadão crítico, capacitado a realizar reflexões sobre seu mundo e a interferir no mesmo. É interessante que seja realizada de maneira interdisciplinar e com foco crítico, fugindo de projetos prontos, os quais eu não acredito terem eficácia, para que seja efetivamente transformadora e emancipatória.

A educação ambiental, tem como desafios, atualmente se desvencilhar da ideologia dominante, pensando em teorias e práticas que efetivamente levem a formação do cidadão crítico e reflexivo, capacitado compreender e a interferir no mundo. Formando sujeitos participativos, e atuantes como cidadãos, no sentido estrito da palavra. E no que eu puder fazer para contribuir, com certeza o farei por aqui no EAcrítica, nos meus projetos, na escola, no mestrado… na minha vida.

EAcrítica 1 ano! Obrigada aos leitores do blog, estamos rumando aos 10000 acessos!

Educação ambiental em foco – por CH e Celso Sánches


Hoje, ouvi uma entrevista em um podcast (uma espécie de programa de rádio divulgado pela Internet) do Estúdio CH, realizado pelo Instituto Ciência Hoje. O tema foi Educação ambiental e o entrevistado o biólogo e educador ambiental Celso Sánchez.

Através de uma retrospectiva das origens da educação ambiental, que datam da década de 70, do século XX, Sánchez, nos coloca que no principio a educação ambiental era entendida apenas como uma “aula de ciências”, associada ao ensino de biologia, e inserida nos livros didáticos como temas de meio ambiente e ecologia. A questão é, será que mudamos muito dos anos de 1970 para cá? Conforme ele mesmo coloca, hoje em dia sabemos que a inclusão da visão social é importante, mas será que isso é realizado na prática, ou a educação ambiental continua reproduzindo ideias ultrapassadas?

O biólogo coloca muito bem, a relação dos problemas ambientais com a questão da justiça ambiental, e que o meio ambiente não existe a parte da sociedade humana (visão dicotomizada). Segundo o biólogo a tendência atual é que a educação seja realizada para além dos muros das escolas, nos espaços informais, nas empresas, comunidades, ONGs. E que a união desses movimentos sociais e com as visões acadêmicas, levam a uma oxigenação dos temas, das práticas e das teorias levando a construção de uma educação ambiental multifacetada.

Sánchez ainda cita os objetivos da Ciência, Tecnologia Sociedade e Ambiente (CTS & A), onde o ensino de ciências passa ter como foco a formação de pessoas críticas e aptas a se posicionarem em discussões sobre ciência, tecnologia e ambiente, temas estes presentes em suas e nossas vidas. Como citado pelo biólogo, para ter por opiniões sobre Belo Monte e as alterações no Código Florestal, a Educação Ambiental “É fundamental que a gente tenha uma população consciente da questão ambiental, que saiba se posicionar diante desta temática, que tenha uma alternativa, para se discutir o que está se querendo como desenvolvimento” disse Sánchez.

Perguntando pelo entrevistador, se o ensino de educação ambiental consegue dar conta de ser também um ato político, Sánchez finaliza dizendo que entre avanços e retrocessos, as reflexões críticas sobre a temática ambiental continuam incipientes… No erro de uma educação ingênua, conservacionista, sem um viés político.

Para ouvir clique aqui.

Desenvolvimento sustentável, uma ideia construída


No artigo Do Ecodesenvolvimento ao Desenvolvimento Sustentável: evolução de um conceito? Layrargues (1997), critica o termo e a lógica do desenvolvimento sustentável e faz uma reconstrução histórica de como ele surgiu.

O termo desenvolvimento sustentável, foi criado pelo Relatório de Brundtland, em substituição a ideia original de Ignacy Sachs – O ecodesenvolvimento, que tem como pilares básicos a eficiências econômica, a justiça ambiental e a prudência ecológica. O ecodesenvolvimento propõe que o desenvolvimento seja alcançado nas próximas décadas, séculos, a solidariedade e cooperação na resolução dos problemas ambientais. Reconhece a necessidade de que se conheça e reconheçam a pluralidade cultural, ecossistemas e das diferentes matrizes tecnológicas.

O que há por trás do termo desenvolvimento sustentável?

Assim por determinação da ONU, por um novo termo foi proposto- Desenvolvimento Sustentável. Diferentemente do ecodesenvolvimento que possui um viés mais social, o discurso do desenvolvimento sustentável assume uma postura de responsabilidade individual na luta contra os problemas socioambientais.

Podemos entender outras diferenças entre o ecodesenvolvimento e desenvolvimento sustentável. O primeiro tem como base a descrença na tecnologia globalizada como solução para os problemas ambientais e limita a atuação do livre mercado. O desenvolvimento sustentável segue a lógica contrária, creditando a tecnologia o papel de dar conta dos problemas ambientais e liberação do mercado total na economia moderna.

O relatório de Brundtland tendenciosamente coloca que “a pobreza é uma das principais causas e um dos principais efeitos dos problemas ambientais no mundo”. No entanto, Layrargues (1997), esclarece que na busca pela erradicação da pobreza, como meio de se diminuir os “problemas ambientais” causados por ela, oculta-se quem são os verdadeiros vilões da natureza, que são os que têm maior acesso aos recursos e consequentemente ao consumo, os ricos, “afinal, se hoje um indivíduo numa economia industrial de mercado, consome 80 vezes mais energia que um habitante da África subsaariana.” (Layrargue, 1997).

Pelo desenvolvimento sustentável, a economia tem que continuar se desenvolvendo com “sustentabilidade”, para que todos possam ter acesso as tecnologias, energia, combustíveis, bens de consumo. Assim a pobreza diminuiria e a degradação da natureza também. No entanto, basta recorremos a lógica do sistema capitalista, para entendermos que o termo e o conceito do desenvolvimento sustentável é apenas mais um engodo do que efetivamente uma solução.

Referência

LAYRARGUES, P. P. Do ecodesenvolvimento ao desenvolvimento sustentável: evolução de um conceito? Revista Proposta, Rio de Janeiro, v. 24, n. 71, p. 1-5, 1997.

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