Trabalho de campo em educação ambiental


Esse post não tem como objetivo ser uma orientação metodológica pronta, pois estaríamos perdendo a essência do que é o próprio desenvolvimento de uma perspectiva crítica em educação ambiental. Ele apenas irá propor algumas formas de se repensar a importância do trabalho de campo em atividades de educação ambiental, pois essa ferramenta pedagógica, desperta um senso crítico nos envolvidos e pode ajudar na sensibilização inicial, na motivação para que estudantes e grupos sociais se mobilizem e participem de projetos de educação ambiental. Continuar lendo

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Dimensões e visões sobre a educação ambiental


Neste post, pretendo falar (escrever) menos e deixar que o leitor do blog assista a esse vídeo,  produzido pela Jacqueline Bento (Mestre em Ensino de Ciências pelo Programa de Mestrado Profissional em Ensino de Ciências do IFRJ), que tem como objetivo, contribuir com a formação continuada de professores em Educação Ambiental e Agenda 21 Escolar da Rede Estadual de Ensino do Rio de Janeiro.

Para ser postado no YouTube, o vídeo teve que ser dividido em 3 partes: Na  primeira há uma explanação geral das diferentes dimensões e visões sobre o que é a Educação Ambiental; Na segunda parte explica-se o que é Agenda 21 e Agenda 21 Escolar; Na última parte há uma explicação do que é a Educação Ambiental desenvolvida através de uma perspectiva crítica.

Diferentes dimensões e visões sobre a Educação Ambiental:

O que é Agenda 21:

A Educação Ambiental desenvolvida através de uma perspectiva crítica:

O Saber Ambiental


Iniciarei o post, baseada nas ideias de ENRIQUE LEFF, autor do livro SABER AMBIENTAL, 6ª edição ed. vozes. Numa perspectiva história, LEFF pontua que a “crise ambiental” começa se evidenciar nos anos de 1960 do século XX, caracterizando-se por ser um reflexo da “irracionalidade ecológica dos padrões de produção e consumo, e marcando os limites do crescimento econômico” (p. 15).

Segundo o autor o conceito de desenvolvimento sustentável, que levaria teóricamente a uma sustentabilidade ambiental, nada mais é do que uma maneira de ecologizar a economia, na tentativa de eliminar a contradição entre o crescimento econômico e preservação da natureza. Essa resignificação da relação destrutiva do capitalismo, que se encontra em sua “fase ecológica”, com a natureza, através do discurso do desenvolvimento sustentável, faz-se necessária para que o crescimento não cesse.

Assim, o discurso da sustentabilidade apresenta-se num tom neoliberal ambiental, de maneira que “as políticas de desenvolvimento sustentável vão desativando, diluindo e deturpando o conceito de ambiente” (p.21) a fim de que o livre mercado se amplie assegurando o “perpetum mobile” do crescimento econômico. Além do crescimento econômico, o discurso do desenvolvimento sustentável, se apóia em outros dois pontos o equilíbrio ecológico e a igualdade social.

A tecnologia assume um papel importante na manutenção desta tríade: a tecnologia, cujo papel é o de reverter a degradação na produção, distribuição e consumo de mercadorias.

Encontramo-nos em tal situação, que o autor não reconhece apenas a “ambientalização do conhecimento”, realizada em geral nas “aulas de educação ambiental” como solução para dar um horizonte às discussões socioambientais. Segundo LEFF é necessário uma visão mais ampliada, o que ele propõe como o Saber Ambiental.

O Saber Ambiental desafia as ciências em suas bases mais sólidas, pois, uma vez que necessitam de uma analise interdisciplinar das relações natureza-sociedade, coloca as certezas dos paradigmas absolutos e imutáveis sob a incerteza de suas próprias certezas. Assim “o Saber Ambiental se produz numa relação entre a teoria e a práxis” (p. 235). A práxis segundo Paulo Freire é a teoria do fazer, ou seja, para alcançarmos o Saber Ambiental, devemos exercitar nossa práxis em torno de nosso próprio fazer pedagógico diário.

Referência:

LEFF, Enrique. Saber ambiental .6. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. 494 p.

Originalmente públicado em no blog: Debates Conceituais no Ensino de Química (como parte da avaliação desta disciplina do Mestrado/IFRJ)

Os diferentes níveis de abordagem em Educação Ambiental


A educação ambiental tem como objetivo a formação do cidadão crítico e reflexivo, capacitado compreender e a interferir no mundo em que vive. Sua importância nos dias atuais refere-se, a direcionar os envolvidos numa determinada realidade socioambiental a se tornarem participativos, no sentido de atuarem como agentes modificadores de suas próprias realidades.

Tendo este entendimento, de que a educação ambiental deve ser uma facilitadora das relações de participação do sujeito com a sua própria realidade e com os problemas socioambientais contidos nela, esta assume um papel que vai além, devendo superar práticas isoladas e pautadas apenas em mudanças de atitude, sem uma perspectiva crítica.

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Níveis de abordagem em educação ambiental: sensibilização, informação, mobilização e ação

No entanto, para alcançarmos essa superação do que vem sendo realizado, no tocante a práticas conservadoras em educação, devemos ter em mente um passo-a-passo ao iniciarmos um projeto de educação ambiental, e esses são listados abaixo:

Na sensibilização buscamos o envolvimento de todos contidos na realidade socioambiental, buscamos assim identificar os atores sociais. Busca-se sensibilizar todas as pessoas contidas na realidade socioambiental, para que estas se sintam parte do processo, buscando evidenciar causas e consequencias da participação ou não delas como envolvidas no processo das mudanças socioambientais.

Após essa abordagem inicial de sensibilização, a informação passa a ser essencial, pois quanto mais acessível aos grupos excluídos, esta pode potencializar mudanças. A informação pode ser uma catalisadora das desejáveis mudanças socioambientais, pois cidadãos bem informados têm mais condições de questionar pressionando autoridades motivando-se para assumirem uma posição de co-responsabilidade e participação social.

Uma vez informados, os grupos envolvidos devem partir para o próximo passo. Na mobilização, visa-se orientar os grupos envolvidos a disponibilizarem esforços no sentido de cooperarem para uma transformação orientada, ou seja, para uma construção coletiva, que leve efetivamente a modificação dos problemas socioambientais.

A ação caracteriza-se como uma etapa já final dos níveis de abordagem em educação ambiental. É onde os grupos envolvidos, uma vez sensibilizados, informados e mobilizados partem para uma ação mais direta em relação ao problema socioambiental. É geralmente caracterizada pela realização de um projeto de intervenção em educação ambiental, visando a execução das metas coletivamente pelo grupo.

Percebemos o quanto é complexa a abordagem em educação ambiental. Não basta que esta seja apenas um processo que SENSIBILIZE as pessoas para os problemas socioambientais e que as INFORME da existência desses mesmos problemas. Esta deve ir além, MOBILIZANDO para a AÇÃO que é onde serão materializadas todas as etapas anteriores.

Sobre a valorização do magistério


Penso que a melhora na qualidade da educação pode acontecer a partir da valorização do magistério, associada a uma política de valorização global que considere: (1) a formação inicial do professor; (2) a melhora nas condições de trabalho; (3) a valorização salarial e da carreira; (4) e a implementação da formação continuada.

Fica claro que mudanças, pautadas em análises simplistas, que propõem a melhora na educação brasileira, longe da valorização do magistério ou pautadas somente em apenas uma dessas premissas, estão fadadas ao fracasso.

Sala de aula de um colégio estadual no Rio de Janeiro e sua condição de trabalho insatisfatória.

A melhora da educação não se fará, como acreditam muitos, apenas com a modernização tecnológica das escolas ou adoção de novos currículos. Um exemplo disso, não distante da nossa realidade como professores, é a implementação de “reformas” em nome da qualidade do ensino, que quase sempre se resumem a compra de equipamentos e reformas curriculares, como se apenas isso fosse capaz de resolver o problema.

Segundo OLIVEIRA (2009) em seu artigo “A formação de professores e a valorização do magistério após a reforma educacional: para onde apontam as pesquisas sobre o tema?”, as reformas educacionais implementadas pelas políticas públicas no Brasil, não consideram as reflexões e pesquisas realizadas dentro das Universidades, ficando a cargo de empresas privadas e ONGs, quem possuem um viés econômico, ligados aos interesses do Banco Mundial.

Percebemos, que as decisões governamentais, ou seja, as decisões que partem de “cima para baixo” quase nunca elegem como importante para a melhorar a educação, a melhora nas condições de trabalho em geral insatisfatórias, a ausência de uma política de valorização social e econômica dos profissionais da educação, além de historicamente ignorarem os baixos salários dos professores na educação básica.

Referência:

OLIVEIRA, Francisca de Fátima Araújo. A formação de professores e a valorização do magistério após a reforma educacional: para onde apontam as pesquisas sobre o tema? IX Congresso Nacional de Psicologia Escolar e Educacional – ABRAPEE. P.1-12. 6 a 8 de julho de 2009. São Paulo.

Educação Ambiental e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN)


A educação ambiental nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) é um dos temas transversais, e deve ser trabalhada enfatizando-se os aspectos sociais, econômicos, políticos e ecológicos. As vantagens de uma abordagem assim é a possibilidade de uma visão mais integradora e melhora na compreensão das questões socioambientais como um todo. Logo, como tema transversal, a Educação Ambiental deve estar presente em todas as disciplinas, perpassando seus conteúdos, como é desejado pelos educadores ambientais

Ao mesmo tempo ela tem a chance de estar presente em todas as disciplinas, um tema transversal não possui um “status” de ser uma disciplina única, sendo muitas vezes deixada em segundo plano em relação aos conteúdos disciplinares. A proposta dos PCNs é de uma abordagem ambiental integrada, tanto entre as disciplinas como entre a sociedade seus problemas específicos.

Será que a Educação ambiental deve ser trabalhada apenas por um professor?

Assim conseguimos diante desta perspectiva imaginar as dificuldades de se trabalhar um tema transversal como é proposto nos PCNs, pois a educação atual não valoriza esse tipo de abordagem interdisciplinar. A integração de todo o corpo docente ao trabalhar a temática ambiental, ainda é mal entendida e pouco utilizada em projetos e no cotidiano escolar. Isto se deve a maioria dos docentes não estarem capacitados para trabalhar com esses temas e ao mesmo de trabalharem em equipe. Assim a Educação Ambiental fica em geral restrita ao professor de ciências e biologia, e percebemos essa tendência que é reforçada pela inclusão, na maioria das vezes, deste tema somente nos livros de ciências.

Outra dificuldade do trabalho, interdisciplinar em projetos é que o professor, sendo pouco valorizado financeiramente, precisa investir seu tempo em muitas atividades e em diversos estabelecimentos de ensino, para obter retorno financeiro, não sendo de seu interessei ou mesmo disponibilidade de tempo planejar atividades em Educação Ambiental. Este fator também contribui de forma negativa para o desenvolvimento de atividades interdisciplinares, já que os professores não tem espaço e nem tempo remunerado, para trabalhar com os demais colegas.

Dessa forma, ao pensarmos a Educação Ambiental na escola, encontramos esta série de dificuldades, esta acaba na maioria das vezes,se mantendo como um tema pontual somente tratado em semanas pedagógicas ou atividades comemorativas no âmbito escolar, ficando restrita a este espaço e sem aplicação na comunidade.

Mesmo com todas essas dificuldades, ainda faço coro de que, a Educação Ambiental não deve ser trabalhada como uma disciplina, mas sim por todo o corpo docente. Mesmo que para isso, tenhamos que repensar o papel da própria escola e da educação, dividida e compartimentalizada em disciplinas que não se comunicam entre si.

Que no Ano vindouro, todos nós possamos estar pensando mais nesses temas e problemáticas da Educação Ambiental no Brasil, e que juntos consigamos construir novos horizontes para esta temática tão pertinente e necessária nos dias atuais. Um Feliz 2011 a todos, um ano de muitos projetos e realizações ambientais! Espero contribuir cada vez mais com este blog e até 2011.

“Não existe mundo sem homem”


Livro Pedagogia do Oprimido, grande clássico de Paulo Freire.

Paulo Freire nos conta em seu livro Pedagogia do Oprimido, que em um de seus “círculos de cultura” em um trabalho realizado no Chile, que um camponês o fez descobrir, que “Não existe mundo sem homem”, este camponês definiu o conceito antropológico de cultura, mesmo que de maneira simples, mas arrebatadora ao então professor Freire. O diálogo pode ser lido na transcrição do livro abaixo, quando o Educador lhe disse:

“Admitamos, absurdamente, que todos os homens do mundo morressem, mas ficasse a terra, ficassem as árvores, os pássaros, os animais, os rios, o mar, as estrelas, não seria tudo isto mundo?”

Daí o camponês responde enfático: “Faltaria quem dissesse Isto é mundo.”

O que camponês quis dizer, exatamente é que faltaria a consciência do mundo que, necessariamente implica o mundo da consciência.

Este trecho me faz refletir minha prática docente, me relação a considerar mais o que o outro tem a dizer, mesmo que este saber, não seja um saber acadêmico ou mesmo letrado. Em Educação Ambiental a via proposta, deve ser sempre a do diálogo, e indo além sempre posta em relação ao cotidiano do educando, como propunha Freire em seus círculos de cultura.

Do que adianta debates sobre os grandes temas ambientais, abstratos para a grande maioria das pessoas, e ignorar o cotidiano e o particular. Querer mudar o mundo sem se transformar as realidades mais próximas dos sujeitos.

Voltando ao camponês, lembro as não poucas vezes em que aprendi muito, com os relatos de docentes durantes algumas aulas em que eu propunha debates sobre as realidades em que vivem meus alunos, deixando-os mais falar do que eu mesma, não intervindo de maneira a tolher suas percepções de mundo.

É um primeiro passo, e isso já foi dito neste blog, que ao trabalharmos com Educação ambiental devemos considerar o olhar dos grupos envolvidos, pois, temos que entender quais representações sociais, norteiam o pensar e o agir dos grupos, diante de suas realidades.

Reafirmo a posição sábia do Camponês em que “Não existe mundo sem homem” e não existe Educação Ambiental sem prática social, analisando o modo em que nós organizamos e vivemos em sociedade, como compreendemos a natureza e o mundo, sem reflexões sobre a realidade cotidiana, sem ação crítica, política e de conscientização coletiva, sem embate de ideias, sem resolução dos conflitos sociais e sem a busca pela justiça social.

Referência:

Freire, P. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: ed. 47 Paz e Terra, 2008.