Do pós Guerra aos 70: O nascimento do movimento ambientalista


É fato que a influência humana relacionada ao seu desenvolvimento social, sempre causou impactos sobre a natureza, variados em intensidade, grau, modo e duração. Esses impactos podem então ser reconhecidos como algo inerente à própria existência do ser humano sob a Terra. É fato também, que em nenhum momento de nossa história, esses impactos foram tão profundos e intensos, a ponto de questionarmos a nossa própria sobrevivência no planeta.

Embora o ambientalismo deva ser observado como um movimento plural e composto por diversos atores sociais, foi ele que Continuar lendo

O conceito de meio ambiente: entre signos e representações sociais


No próximo dia 5 de Junho, será o Dia Mundial do Meio Ambiente e pretendo iniciar algumas reflexões sobre este conceito, colocando em pauta, a seguinte questão: O que para nós representa o conceito de meio ambiente? Especialmente eu por estar estudando, semiótica, tenho despertado o interesse em mim, por análises mais profunda de quais são os signos que para nós, especificamente representam o conceito de meio ambiente.

No entanto, antes de ir ao conceito de meio ambiente, vamos definir o que é semiótica, que nada é que o estudo dos signos e das ações dos signos. Os signos seriam “algo no lugar de algo”, ou seja, os signos podem ser qualquer coisa que facilitem e/ou permitam a compreensão do que é objeto (ou conceito) pelo sujeito. Assim os signos só existem, para levar o significado do objeto (ou conceito) ao sujeito, num processo que se denomina semiose, ou seja, a ação do signo sobre o sujeito.

Assim ao refletirmos sobre o conceito de meio ambiente, utilizando algumas noções referentes ao conceito de representação social, principalmente as contidas em REIGOTA (1995), quando ele se apropriando das definições de MOSCOVICI, propõe as representações sociais como sendo um conjunto de princípios construídos na interação entre os grupos sociais.

O sentido de uma representação social, é que ela por sua natureza construída, dentro das relações sociais, portanto cultural, esta irá ser carregada de vários signos, pois, toda representação é um signo, e estes signos irão variar de acordo o grupo o qual estamos inseridos.

Pode a cidade ser considerada meio ambiente?

Quais serão os diferentes signos que participam da formação do conceito de meio ambiente? Talvez sejam muitos, mas com toda certeza as diferentes visões sobre o meio ambiente, se relacionam às imagens mentais de grupos de pessoas a respeito deste conceito. No entanto, nem todos os signos que tentam construir o conceito de “meio ambiente” serão suficientes para o representar em sua totalidade, pois, uma característica da própria representação é sua incompletude, ao tentar representar o objeto, no caso o conceito de meio ambiente.

Esse conceito é deverás polissêmico, e não consensual, carregado de um conjunto simbólico enorme, por exemplo, muitas pessoas relacionarem o conceito de “meio ambiente”, a ecossistemas naturais (sem a presença humana), e isto se relaciona diretamente ao “mito moderno da natureza intocada” de DIEGUES (2004). Essa representação comum de meio ambiente é ao mesmo tempo simbólica quando pensamos em meio ambiente como sendo ambientes florestados (florestas tropicais) e icônica, quando inevitavelmente nos remetemos a cor verde, no que se refere a cor das florestas…

Mas será que o conceito de meio ambiente é composto apenas por florestas ou ecossistemas intocados? A resposta não virá neste post, pois a intenção é mesmo provocar questionamentos e não apenas responder a questão. Pense em quantos e quais, signos participam da formação do conceito de meio ambiente para você? Com toda certeza não serão os mesmos que os meus, mas, certamente poderemos observar nas respostas algumas similaridades no que podemos denominar de núcleo compartilhado de significados. Mesmo que nós nos exercitemos nessa construção coletiva, a soma de todas as representações simbólicas não darão como resultado final o objeto “meio ambiente”, mas podemos ao menos tentar.

Referências:

DIEGUES, A. C. S. O Mito moderno da natureza intocada. São Paulo, Ed. Hucitec, 2004. 382 p.

REIGOTA, M. Meio ambiente e representação social. São Paulo: Cortez, 1995.

Desenvolvimento sustentável, uma ideia construída


No artigo Do Ecodesenvolvimento ao Desenvolvimento Sustentável: evolução de um conceito? Layrargues (1997), critica o termo e a lógica do desenvolvimento sustentável e faz uma reconstrução histórica de como ele surgiu.

O termo desenvolvimento sustentável, foi criado pelo Relatório de Brundtland, em substituição a ideia original de Ignacy Sachs – O ecodesenvolvimento, que tem como pilares básicos a eficiências econômica, a justiça ambiental e a prudência ecológica. O ecodesenvolvimento propõe que o desenvolvimento seja alcançado nas próximas décadas, séculos, a solidariedade e cooperação na resolução dos problemas ambientais. Reconhece a necessidade de que se conheça e reconheçam a pluralidade cultural, ecossistemas e das diferentes matrizes tecnológicas.

O que há por trás do termo desenvolvimento sustentável?

Assim por determinação da ONU, por um novo termo foi proposto- Desenvolvimento Sustentável. Diferentemente do ecodesenvolvimento que possui um viés mais social, o discurso do desenvolvimento sustentável assume uma postura de responsabilidade individual na luta contra os problemas socioambientais.

Podemos entender outras diferenças entre o ecodesenvolvimento e desenvolvimento sustentável. O primeiro tem como base a descrença na tecnologia globalizada como solução para os problemas ambientais e limita a atuação do livre mercado. O desenvolvimento sustentável segue a lógica contrária, creditando a tecnologia o papel de dar conta dos problemas ambientais e liberação do mercado total na economia moderna.

O relatório de Brundtland tendenciosamente coloca que “a pobreza é uma das principais causas e um dos principais efeitos dos problemas ambientais no mundo”. No entanto, Layrargues (1997), esclarece que na busca pela erradicação da pobreza, como meio de se diminuir os “problemas ambientais” causados por ela, oculta-se quem são os verdadeiros vilões da natureza, que são os que têm maior acesso aos recursos e consequentemente ao consumo, os ricos, “afinal, se hoje um indivíduo numa economia industrial de mercado, consome 80 vezes mais energia que um habitante da África subsaariana.” (Layrargue, 1997).

Pelo desenvolvimento sustentável, a economia tem que continuar se desenvolvendo com “sustentabilidade”, para que todos possam ter acesso as tecnologias, energia, combustíveis, bens de consumo. Assim a pobreza diminuiria e a degradação da natureza também. No entanto, basta recorremos a lógica do sistema capitalista, para entendermos que o termo e o conceito do desenvolvimento sustentável é apenas mais um engodo do que efetivamente uma solução.

Referência

LAYRARGUES, P. P. Do ecodesenvolvimento ao desenvolvimento sustentável: evolução de um conceito? Revista Proposta, Rio de Janeiro, v. 24, n. 71, p. 1-5, 1997.

Imagem FreeDigitalPhotos.net

A Natureza objeto


Será esta árove uma máquina?

Observamos quase sempre, a natureza como algo exterior a nós mesmos, e isso tem uma explicação

Tendo como foco a análise temporal do desenvolvimento da sociedade ocidental, a atual crise ambiental é produto histórico de um modelo de desenvolvimento econômico, social e cultural. Neste processo, esta crise veio sendo apoiada e constituída por valores e paradigmas que a transformaram no que ela é hoje. Assim a realidade atual foi reciprocamente construída e reforçada por paradigmas e valores, e a superação da crise, implica necessariamente na superação desses paradigmas e valores.

Essa crise ambiental, não é simples de ser analisada, é complexa, multifacetada e multidimensional, afeta nossa saúde, nosso modo de vida, qualidade do meio ambiente, relações sociais, economia, tecnologia e política, daí a necessidade de ser analisada por diferentes seguimentos da sociedade, ou seja, de uma maneira interdisciplinar.

O autor Mauro Grün (1996) em seu livro Ética e Educação Ambiental – A conexão necessária, analisa e reconstrói esse processo histórico e identifica alguns valores e paradigmas em que se apoiou a construção da atual sociedade e ainda continua a apoiando…

O autor identifica que a ética antropocêntrica surgida a partir do renascimento, como sendo uma das principais causas da degradação ambiental, esta ética centrada no ser humano, está diretamente associada ao paradigma mecanicista, o qual inaugura a visão de que a natureza é uma máquina.

Esta mudança de modelo para uma visão que deixa de lado Deus como centro de tudo e coloca neste papel o ser humano e transforma o orgânico e natural em algo mecânico. O ser humano desde então se coloca em posição central no universo e a natureza de maneira secundária. Nesta época que ocorre cisão entre natureza e cultura, uma separação que levaria o futuro da humanidade a um antropocentrismo radical e apoiado fortemente pela razão.

A ciência moderna teve também um papel fundamental na difusão da lógica mecanicista da natureza, através do próprio método cientifico utilizado nas pesquisas, onde – a natureza, passa a ser não mais que, um objeto passivo de estudo dos cientistas. Percebemos que o ser humano se retira da natureza para que possa estudá-la cientificamente. Ao se retirar o ser humano se põe num lugar de descobridor e dominador da natureza…

Segundo Grün, o paradigma mecanicista; a ciência e sua metodologia objetificante; os valores individualistas, pragmáticos e racionais; a cisão cartesiana entre ser humano e natureza constitui uma barreira invisível para o entendimento da crise ambiental complexa e multifacetada e também para o desenvolvimento de uma educação ambiental realmente efetiva, nas palavras do mesmo autor constituem “uma impossibilidade radical de uma educação ambiental no cartesianismo”.

Uma das possíveis saídas para que seja realizada uma educação ambiental consistente, é que haja a superação da dicotomia ser humano x natureza. É necessário, que seja superada a visão da natureza como sendo uma fotografia de uma paisagem natural na parede onde nós, não nos reconhecemos e nem nos vemos; Por uma visão de uma natureza filme, em pleno desenvolvimento e movimento, cheio de cores, sons, perspectivas, problemas, onde nós somos atores em condição de atuar num cenário não menos importante, e ao mesmo tempo em que atuamos podemos assim mudar o desenrolar na história a todo o e qualquer momento.

Referência:

GRÜN, M. Ética e educação ambiental: a conexão necessária. 13ª ed. São Paulo: Papirus, 1996.

Uma crítica ao conceito ecológico de ecossistema


Tomemos como exemplo o Brasil, nosso país possui nove ecossistemas: floresta amazônica, mata dos cocais, caatinga,  cerrado, pantanal, mata atlântica, manguezais,  pampas e mata de araucária. Os ecossistemas ou biomas caracterizam-se pelas relações entre os componentes ambientais, tais como: luminosidade, pluviosidade,  temperatura, influenciados sobretudo pela latitude em que se localiza e em alguns casos pela altitude; A esses componentes ambientais definimos como  fatores abióticos dos ecossistemas, os fatores bióticos são os seres vivos que ali vivem:  a fauna,  a flora, os fungos, os seres microscópicos, ou seja, todas as formas de vida existentes nestes biomas.  Esta é uma definição ecológica de ecossistema, no entanto, será que ela está completamente correta?

A ecologia é definida por RICKLEFS (2003), como a “a ciência pela qual estuda como os organismos interagem entre si e com o meio natural”, mas a não consideração do ser humano como um ser social de modificação e da sua relação específica com a natureza, é um erro considerável, pois não assume que as atividades humanas tais como as transformações e alteração da cobertura do solo, retirada de cobertura vegetal, instalação de infra-estrutura, construção de cidades, alterações dos cursos d´água, como sendo relações também inclusas na dinâmica do funcionamento dos ecossistemas.

Desses nove biomas brasileiros, alguns mais que outros, passaram por um intenso processo histórico de transformação antrópica, como por exemplo, a mata atlântica reduzida a 8% de sua cobertura original, inclusive neste blog tentei descrever como foi  sendo traçada estas relações ao longo de um processo histórico entre ser humano e natureza.

Sendo um ser social, o ser humano transforma a natureza e assim também o é transformado por ela, no entanto, a falta de conhecimento de causa do que essas transformações ocasionariam ao longo dos séculos,  aliada a interesses desenvolvimentistas e do próprio sistema capitalista  levou este resultado de degradação ambiental.

No século XX a partir da década de 70  os movimentos socioambientalistas denunciaram ao mundo essa degradação humana nos ecossistemas, vindo a tona, o que era antes apenas interesse dos cientistas, a toda a sociedade.  Isto significa dizer que a pouco mais de 40 anos atrás, o que particularmente acho pouquíssimo tempo, que  a sociedade foi “informada” de que a interferência humana nos ecossistemas pode levar a sua destruição,  fragmentação, a redução da biodiversidade, a poluição entre outros problemas bastante conhecidos hoje, até mesmo por uma criança de 8 anos.

Diante deste alerta podemos concluir que ao inserir os seres humanos como seres sociais que interagem e modificam os ecossistemas, e saber que isso nem sempre pode ser trazer consequencias positivas para a dinâmica dos mesmos é um começo quando se analisa a origem dos problemas socioambientais atuais. No entanto, não é somente essa análise que nos permitirá entender o todo de um processo complexo e histórico, social, econômico …

Referências:

RICKLEFS, R.E. A economia da natureza. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003.

As diferentes correntes do pensamento ecológico


A caracterização de como se deu processo histórico referente a relação Ser Humano x Natureza, já foi anteriormente descrito neste blog, sendo, este entendimento básico, para um aprofundamento teórico, quando se analisa as origens dos problemas ambientais atuais, e igualmente importante na hora em que se planeja iniciar um projeto de Educação Ambiental.

Além disso,  sendo a Educação Ambiental é uma prática Interdisciplinar, ela nos permite e exige analisar, não somente os fatores biológicos, mas também os históricos, econômicos, geográficos e sociais. Este post pretende, categorizar e diferenciar as principais correntes de pensamento ecológico presentes em nossa sociedade segundo DIEGUES (2004).

O entendimento de como se baseiam as relações sociais entre ser humano x natureza, nos leva a perceber como nós percebemos a natureza e fundamentalmente, o modo como nós nos relacionamos diretamente com ela. Segue abaixo as definições:

a) Preservacionismo – Esta corrente de pensamento ecológico com bases em uma linha ecocêntrica, tem uma visão de natureza, relacionada a esta possuir um valor intrínseco, não devendo servir aos interesses exploratórios do ser humano. Busca a preservação de áreas naturais, pelo valor que tem em si mesmas e não nos valores para o uso humano. Assim a preservação lança mão de um conjunto de métodos, procedimentos e ações que visam garantir a proteção e integridade de espécies, habitats, ecossistemas e dos processos ecológicos.

Estas áreas de preservação são criadas quando há a necessidade de preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais, garantindo assim a sua intocabilidade. Nessas áreas é vetada qualquer forma de exploração dos recursos naturais com exceção dos casos previstos pela lei como a pesquisa, lazer e ações educação ambiental.

b) Conservacionismo – Vê uma finalidade de utilidade na natureza, para uso do ser humano. O movimento dos conservacionistas atribui aos recursos naturais o uso racional. Em sua concepção a natureza é lenta e o processo de manejo pode torná-la eficiente, essas idéias foram precursoras do conceito de desenvolvimento sustentável.

Áreas de conservação são criadas na intenção de resguardar os danos ambientais que levam ao prejuízo ao meio ambiente. Nestas áreas são permitidas as intervenções humanas, inclusive a exploração de qualquer recurso natural. Nas leis brasileiras ambientais, conservação significa proteção dos recursos naturais, com utilização racional, garantindo sua sustentabilidade. Segundo o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (2002) conservação é “o manejo do uso humano da natureza, compreendendo a preservação, a manutenção, a utilização sustentável, a restauração e a recuperação do ambiente natural, para que possa produzir o maior benefício, em bases sustentáveis, às atuais gerações, mantendo seu potencial de satisfazer as necessidades e aspirações das gerações futuras, e garantindo a sobrevivência dos seres vivos em geral.”

c) Ecologia Profunda – Esta corrente do pensamento ecológico segue uma linha preservacionista extrema, numa tomada de consciência ecológica profunda, que entende que o ser humano deve utilizar a natureza apenas para seus processos vitais, e isso não dá o direito de utilizá-la com uma finalidade, ou como forma de obtenção de lucro ou vantagens.  Adeptos desta corrente dão grande importância aos princípios éticos que devem reger as relações homem-natureza, e para que estes princípios sejam postos em prática, sugerem uma grande mudança política, afetando as estruturas econômicas, tecnológicas e ideológicas.

O termo Ecologia profunda (deep ecology) foi cunhado nos anos 70, nos idos do início do movimento ambientalista e advoga que toda a natureza tem valor intrínseco independente do utilitarismo e a vida humana não tem direito de reduzir a biodiversidade.

d) Ecologia Social – Esta corrente do pensamento ecológico segue uma linha preservacionista ecocêntrica, numa visão de que a degradação da natureza está diretamente ligada ao sistema capitalista, pois a acumulação de capital é à força de devastação da mesma. Os ecologistas sociais, dizem que o termo ecologia deve propor uma concepção mais ampla da natureza e da relação da humanidade com o mundo natural.

Esta corrente de pensamento da Ecologia Social se opõe ao domínio da natureza pelo ser humano, no entanto veem os seres humanos como seres sociais que se dividem em classes sociais como pobres, ricos, brancos, negros; e criticam a noção de Estado e propõem uma sociedade democrática, descentralizada e baseada na propriedade comunal de produção, são considerados anarquistas e utópicos.

e) Eco-Socialismo/Marxismo – Esta corrente do pensamento ecológico segue uma linha conservacionista. Ela analisa a questão ambiental, não no “fato” mas o “modo” como o ser humano explora a natureza. Teve sua origem no movimento de crítica ao marxismo clássico, a partir da década de 60.  A crítica da corrente eco-marxista se desenvolve em cima da explicação do sistema capitalista onde a natureza é uma simples mercadoria, objeto de consumo ou meio de produção.

Os eco-marxistas fazem uma critica entre a oposição do culturalismo, que vê na natureza uma ameaça e no naturalismo que demonstra uma aversão pela sociedade e cultura. O naturalismo preza uma mudança que se baseia em três premissas: o homem produz o meio que o cerca e é ao mesmo tempo seu produto; a natureza é parte da nossa história; a coletividade, e não o individuo, se relaciona com a natureza, isto é, a sociedade pertence à natureza e é um produto do mundo natural. Em resumo, o naturalismo propõe que a natureza é um lugar onde o ser humano se desenvolve e evoca um novo paradigma, no qual é necessária uma mudança nesta relação destrutiva com a natureza.

E você de que modo se relaciona com a natureza? Acha que ela tem que ser preservada ou conservada? Ela é quase sagrada como propõe a ecologia profunda? Será o capitalismo o único culpado por todos os problemas socioambientais como sugere a ecologia social? Ou será que somos, enquanto sociedade, fruto da natureza, ou seja, produto natural, devendo apenas ajustar a relação destrutiva que viemos travando com a natureza como propõe o eco-marxismo?

É uma boa questão para se pensar neste dia 5 de Junho, dia Mundial do Meio Ambiente.

Referências:

DIEGUES, A. C. S. O Mito moderno da natureza intocada. São Paulo, Ed. Hucitec, 2004. 382 p.

IBAMA/MMA Sistema Nacional de Unidades de Conservação Federais do Brasil. Ministério do Meio Ambiente. Acompanha CD. 2002.

Sobre a história da relação Ser Humano x Natureza


Este post abaixo, foi escrito e publicado por mim originalmente no blog POLEGAR OPOSITOR, o qual eu participo como colaboradora, no entanto, estou reproduzindo aqui, pois, o considero de extrema importância para um aprofundamento teórico em Educação Ambiental fazer essa reconstrução da ideia de como se deram as relações ser humano x natureza:

Nos primórdios da humanidade, na pré-história (aproximadamente 4000 a.C.) período que antecede a invenção da escrita, há, portanto, uma falta de registros de como se inter-relacionavam ser humano e natureza. Possivelmente estas relações eram baseadas no princípio de que homem e natureza eram um todo, sem a separação de um e outro, consequentemente não se observavam relações de domínio ou posse da natureza pelo ser humano.

Com o passar do tempo o ser humano passou a dominar técnicas que o possibilitaram o manejo da natureza como a fabricação de utensílios para a caça, pesca, coleta e manufatura de materiais. Estas técnicas mesmo que rudimentares já demonstrava uma certa independência do ser humano em relação à natureza, no entanto, foi somente com o desenvolvimento da agricultura e a domesticação dos animais, que ele conseguiu diminuir sua dependência em relação à natureza, tornando-se não mais nômade, e fixando-se em habitações. Assim as relações ser humano x natureza mudaram de uma perspectiva de ‘’uma coisa só” para uma relação de domínio desta por aquele.

Na idade média, esta relação, mais uma vez sofre uma mudança com a inserção de um elemento “sobrenatural” ou “divino”. Para mediar as relações entre ser humano e divino surgem as religiões, que determinam como serão estas relações estabelecendo regras que devem ser cumpridas (dogmas). Na mesma época há o surgimento também do Estado que passa a controlar as relações entre os seres humanos, ou seja, agora existem pessoas que cuidam de como o ser humano se relaciona com o sobrenatural (clero) e como este se relaciona com as pessoas (Estado). Neste contexto, a relação ser humano x natureza sofre uma mudança intensa, pois, a humanidade privilegiada por suas habilidades e origem divina passa a exerce sobre esta a natureza um domínio oficializado pela igreja e por “Deus”.

A partir do Renascimento (séc. XVI) e com a difusão de idéias antropocêntricas e racionais, a relação ser humano x natureza sofre também uma mudança bem significativa, pelo fato do ser humano passar a ser o centro, um ser privilegiado por suas habilidades racionais e por isso apto a explorar e se apropriar da natureza (não mais como direito divino), mas utilizando a racionalidade que o diferencia e destaca dos demais animais.

Em plena revolução Científico-industrial o mundo natural passa a ser objeto de conhecimento empírico-racional, de uso do ser humano para bem de seu desenvolvimento e de desenvolvimento de suas atividades. Esta relação ser humano x natureza é apoiada pela visão mecanicista do mundo e confere a natureza o ‘’status” de meio de obtenção de lucro e recursos naturais infinitos, para uso dos seres humanos. Assim começa-se a construir e intensificar uma relação cada vez mais exploratória da natureza, pelo ser humano, que foi transpassando os séculos num voraz uso dos recursos naturais, até que estes foram dando sinais de que não eram tão infinitos quanto se imaginava…

A reação ocorreu, a partir de meados do século XX com os movimentos ambientalistas que tentavam despertar o interesse pela história natural e valorização da natureza. Estes movimentos ambientalistas apareceram principalmente nos anos 60 e 70 (séc. XX) aliados a outros grupos como hippies, pacifistas e socialistas com discussões. As idéias “ecologistas” passaram a ser uma das muitas a serem defendidas junto com as anti-militaristas, pacifistas, direito das mulheres e direitos das minorias.

Estas idéias ecologistas criticaram, sobretudo, as relações ser humano com a natureza que vinham degradando a natureza em prol de uma produção cada vez mais desenfreada, para suprir as necessidades de consumo, muita das vezes supérfluas das sociedades industrializadas modernas. Este movimento ambientalista trouxe a público, questões de reflexões e interesse da humanidade como o uso de energia nuclear, o uso desregrado dos recursos da natureza, extinção de espécies animais, acidentes ambientais e a necessidade mais profunda de discussões teóricas sobre as visões de relação da humanidade com a natureza.
Ainda no mesmo século (XX), nas décadas de 80 e 90 surgem os Partidos Verdes, cujos interesses visavam ações políticas e governamentais em proteção da natureza.

Posterior ao surgimento dos movimentos ambientalistas, houve a necessidade de discussões teóricas sobre as inter-relações ser humano x natureza. Estas discussões são norteadas por duas principais linhas de pensamento: (1) a antropocêntrica, que ressalta a dicotomia ser humano x natureza, justificando a exploração da natureza, através da ciência e tecnologia, sendo a natureza somente um depósito de recursos para uso do ser humano, e este está no centro destas relação; (2) a ecocêntrica ou biocêntrica, onde a natureza está no centro destas relações, e o ser humano é somente mais um ser vivo inserido no mundo natural, além deste ter um valor intrínseco e independente da utilidade que possa ter para o ser humano.

Referência:

DIEGUES, A. C. S. O Mito moderno da natureza intocada. São Paulo, Ed. Hucitec, 2004. 382 p.