Compre mais!


O motivo dessas divagações  sobre as relações de consumo talvez seja, pois recentemente minha televisão com apenas dois anos de uso, queimou uma  peça e parou de funcionar. Entendo que aparelhos eletrônicos são passíveis de defeito, mas acredito que dois anos é um tempo muito curto para que uma TV pare de funcionar, ainda mais levando em consideração o seu valor de mercado e suposta durabilidade… Continuar lendo

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Bolsa de Grife


Estava ouvindo um álbum da Vanessa da Mata “Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias” e me deparei com essa música que faz uma crítica bem humorada e irônica das relações de consumo, a canção relata a compra frustrada de uma bolsa de grife. Na compra do item a promessa de amor, cura da gripe, cura do fogo entre outras “mentiras”, que logicamente um objeto não poderia dar a ninguém. A conclusão final se revela no refrão “Ainda tenho a angústia e a sede, a solidão, a gripe e a dor, e a sensação de muita tolice, nas prestações que eu pago pela tal bolsa de grife”.

Pode parecer até brincadeira, mas quantas vezes já não compramos “bolsas de grife” incentivados por uma propaganda, por um impulso, por uma vontade inexplicável de ter aquela roupa, aquele objeto “de nossos sonhos”, o último lançamento do qualquer eletrônico, o último modelo de aparelho de celular… O problema não está no consumir, vivemos em uma sociedade onde precisamos comprar para ter acesso aos bens materiais necessários a nossa própria vida.

O problema é o consumismo, esse sufixo “ismo” dá um tom de que algo é doentio ou relativo à doença, no próprio Wikipedia a definição “ato de consumir produtos e/ou serviços, indiscriminadamente, sem noção de que podem ser nocivos ou prejudiciais para a nossa saúde ou para o ambiente”. Muitas vezes influenciados pelas propagandas de empresas, publicidade e da cultura, somos  induzidos ao consumismo sem necessidade, é a sociedade do consumo.

Paremos um momento para ouvir a música e depois para repensar. A própria música dá a dica “Nem pensei. Impulso pra sanar um momento. Silenciar barulhos. Me esqueci de respirar Um, dois, três. Eu paro. Hoje sei que tenho tudo Será? Escrevi em meu colar. Dentro há o que procuro.

Bolsa de Grife – Vanessa da Mata

Comprei uma bolsa de grife
Mas ouçam que cara de pau.
Ela disse que ia me dar amor
Acreditei, que horror
Ela disse que ia me curar a gripe
Desconfiei, mas comprei
Comprei a bolsa cara pra me curar do mal
Ela disse que me curava o fogo
Achei que era normal
Ela disse que gritava e pedia socorro
Achei natural

Ainda tenho a angústia e a sede
A solidão, a gripe e a dor
E a sensação de muita tolice
Nas prestações que eu pago
Pela tal bolsa de grife (2x)

Nem pensei
Impulso
Pra sanar um momento
Silenciar barulhos.
Me esqueci de respirar
Um, dois, três
Eu paro
Hoje sei que tenho tudo
Será?
Escrevi em meu colar
Dentro há o que procuro

Ainda tenho a angústia e a sede
A solidão, a gripe e a dor
E a sensação de muita tolice
Nas prestações que eu pago
Pela tal bolsa de grife (2x)

Meu amigo comprou um carro pra se curar do mal

Erro no sistema


Quando pensamos nas grandes questões ambientais, é interessante, não realizar a separação, entre o ser humano e a natureza. Este modo de pensar caracterizou por muito tempo as lutas ambientalistas, dos anos 70, 80 e 90… No entanto atualmente, as linhas de pensamento mais modernas sobre o assunto, inserem o ser humano nessa análise e logo o mais correto é a análise das questões socioambientais.

Se considerarmos que a maior parte dos problemas socioambientais, não  estão especificamente no fato em si da degradação, como por exemplo a poluição, o desflorestamento e a exploração de recursos, mas especificamente no modo, como essa degradação acontece, ou seja, como o próprio ser humano se relaciona com a natureza. No atual modelo de desenvolvimento econômico e social, a natureza é vista como uma mercadoria, objeto de consumo ou meio de produção.

É esta crítica mais profunda que buscamos neste blog. Ao falarmos apenas da degradação, poluição, desflorestamento e exploração de recursos, estamos caindo numa análise reducionista. Pois, não considerando o ser humano na questão, logo, estamos falando apenas de problemas ambientais. Mas, essas relações de degradação dependem estritamente da própria ação do ser humano para que elas aconteçam.

E o ser humano está diretamente inserido nessa relação, seja extraindo ou produzindo seja lucrando ou sendo explorado. O ponto que gostaria de chegar é, como foi dito acima, neste caso estamos analisando a relação do ser humano com a natureza: uma relação socioambiental. É impossível pensar no meio ambiente sem a presença humana, pois é através de seu trabalho que o ser humano modifica a natureza e é por ela modificado.

E esta exploração da natureza, quase sempre se relaciona com a exploração do próprio ser humano. A lógica do capital é explorar o trabalhador e a natureza, assim o aviltamento das condições humanas de trabalho, está diretamente relacionado à lógica predatória que devasta a natureza.

Por este mesmo motivo, na minha opinião, é impossível dissociar uma análise de problemas socioambientais, de uma crítica ao próprio sistema capitalista. A educação ambiental crítica, não pode e não deve fugir a esse debate. Inclusive, acredito que e a forma mais eficaz de se pensar em educação ambiental, é educar para a crítica, educar para o debate e para o embate.

O ser humano produz o meio que o cerca e é ao mesmo tempo seu produto, e as nossas relações com a natureza fazem parte de nossa própria história. Temos que deixar de lado essas análises meramente ambientais e começar a desvelar a raiz mais radical do problema, ou seja, o modo de produção. Há uma necessidade urgente de evocarmos um novo paradigma, no qual é necessária uma mudança nesta relação destrutiva com a natureza, nem que para isso tenhamos que mudar o sistema.

Erro de sistema O capitalismo deixou de funcionar! Instalar novo sistema? OK

Consumo infinito em um planeta finito


Seguindo o pressuposto de que os recursos naturais presentes no mundo são em sua grande maioria finitos, e diante desta constatação, partindo de outro principio, de que no mundo atual ocorre uma má distribuição no uso desses recursos, acontecendo o uso de forma desigual, ou seja, há os que têm mais acesso aos recursos (ricos) e os que têm menos acesso a estes recursos (pobres), chegamos a uma inconclusiva questão o sobre o que temos que fazer para equacionar essa balança?

A suficiência dos recursos naturais preza pela manutenção dos recursos para as populações no presente e no futuro. Ao considerarmos um recurso, devemos ter em mente o uso deste, de modo com que todos possam usufruí-lo da forma mais igualitária possível, isso se chama justiça ambiental, que atua de modo que nenhuma parcela seja injustiçada.

Existem certas correntes ambientalistas que ou por má fé ou mesmo por uma certa ingenuidade, acreditam que a maior parte dos problemas ambientais são causadas pelos pobres. Exatamente porque, estes em situação de risco, ou seja, marginalizados da sociedade, passam a situação de relação direta com a natureza, passando a exercer atividades de extrativismo, caça e pesca, muitas vezes em Unidades de Conservação da natureza. Muitos conseguem até mesmo, fazer uma relação entre desigualdade social e exclusão social com a degradação ambiental.

Como seria se TODOS tivessem acesso a tecnologia, energia, combustíveis, bens de consumo?

Como seria se TODOS tivessem acesso a tecnologia, energia, combustíveis, bens de consumo?

Na minha opinião, isso é uma falácia verde, assim como outras tantas, como por exemplo, o mito da sustentabilidade já comentado neste blog. No artigo Do Ecodesenvolvimento ao Desenvolvimento Sustentável: evolução de um conceito? Layrargues (1997), muito lucidamente faz uma discussão a cerca do Relatório de Brundtland que coloca “a pobreza é uma das principais causas e um dos principais efeitos dos problemas ambientais no mundo”.

Neste mesmo artigo Layrargues, diz que na busca pela erradicação da pobreza, como meio de se diminuir os “problemas ambientais” causados por ela, oculta-se que os verdadeiros vilões da natureza, que são na verdade os que mais acesso tem ao consumo, ou seja os ricos: “Afinal, se hoje um indivíduo numa economia industrial de mercado, consome 80 vezes mais energia que um habitante da África subsaariana.”

Mas será que se todos os habitantes do mundo passarem a ter um padrão de consumo americano, por exemplo, o planeta daria conta de suprir esta demanda com seus recursos finitos? Se seguirmos os princípios do desenvolvimento sustentável, a economia tem que continuar se desenvolvendo, para que “sustentavelmente” todos possam ter acesso as tecnologias, energia, combustíveis, bens de consumo para que assim a pobreza diminua e a degradação da natureza também.

Voltemos a questão da finitude dos recursos, a partir da lógica da justiça ambiental, que garante igual acesso e usufruto dos recursos. Para chegarmos a uma solução equilibrada, os que consomem e assim tem mais acesso aos recursos teriam que diminuir e os que pouco consomem aumentaria seu consumo e assim teríamos justamente um equilíbrio.

Será que essa solução equilibrada segue a linha do sistema econômico dominante? Com certeza não, pois uma vez que uma das características marcantes da sociedade industrial ampliar cada vez mais o consumo…

Referência:

Layrargues, P. P. Do ecodesenvolvimento ao desenvolvimento sustentável: evolução de um conceito? (1997)

Coleta Seletiva: Dicas rápidas


A Coleta Seletiva é um sistema de recolhimento de materiais recicláveis, como, por exemplo: papéis, plásticos, vidros e metais, previamente separados em categorias ou não. O lixo seco reciclável pode ser coletado diretamente através de iniciativas municipais ou cooperativas, nas cidades onde já existe efetivamente a coleta seletiva que recolhe na fonte geradora (residências, comércios, escolas e indústrias) estes resíduos sólidos, para serem reutilizados ou reciclados. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) dos 5564 municípios do País, só 994 têm coleta seletiva. No entanto, esses dados ainda não são, nem de longe razoáveis, exigindo esforços mais intensos dos municípios no trato desta questão do lixo.

Moro na cidade do Rio de Janeiro, aqui assim como os outros 4569 municípios do Brasil, a Prefeitura juntamente com a empresa responsável pela coleta de lixo urbano, não tem como política pública a coleta seletiva. Muitos se apropriam desta justificativa para não adotarem esta prática (que deveria ser uma rotina) em suas residências, mas acreditando que devemos ir além, do que apenas nos convém no “pacto social”, eu resolvi por iniciativa própria há alguns meses atrás iniciar uma Coleta Seletiva Solidária aqui em minha casa.

Pretendo neste post, dar umas dicas rápidas de como iniciar e realizar uma coleta seletiva na sua casa, os sites que me ajudaram a entender o processo e achar um local para você possa levar seu lixo.

Após uma palestra sobre a implantação da Coleta Seletiva Solidária nas escolas Estaduais, na qual eu estava presente, entendi que o mais importante na seleção e triagem do lixo em nossas residências, em escolas e condomínios, é basicamente pensar o lixo em duas grandes categorias: (1) o lixo seco, papéis, plásticos, vidros, metais, tetrapak® e (2) o lixo úmido (orgânico), restos de comida, cascas de legumes, frutas e papel higiênico.

O lixo seco tem valor comercial imediato, através do processamento em indústrias que realizam a reciclagem. O lixo úmido será decomposto por fungos e bactérias e só teria via de regra um valor comercial, caso fosse decomposto em composteiras para obtenção de adubo, ou tratado em aterros controlados gerando bioagás (um sonho muito longínquo aqui no Brasil). Se você perceber, bom eu percebi depois que comecei a realizar a coleta seletiva, que a maior parte de lixo doméstico é o lixo seco.

Seguindo então uma separação simples entre lixo seco e lixo úmido, o que tive que fazer inicialmente foi apenas arrumar um local para a deposição do lixo seco (improvisei uma caixa de papelão com saco de lixo dentro):

Separação do lixo reciclável

E para o lixo úmido (orgânico) continuei a utilizar a mesma lixeira que eu já utilizava anteriormente:

Lixo Orgânico (úmido)

Uma dica para reduzir o volume do lixo é amassar as garrafas pet. Outra dica é nas embalagens tetrapak® , antes de colocar no saco de lixo enxaguar com ¼ de água, cortar as quatro pontas da caixa deixar secar, e só depois colocar junto com os outros materiais:

Amassar as garrafas diminui o seu volume e cortar as pontas de embalagens tetrapak evita acúmulo de material orgânico

Após essa etapa inicial, faz-se necessário descobrir algum local que receba os recicláveis. O Rota da Reciclagem disponibiliza um bom serviço de consulta, onde a partir da digitação do endereço, o site lista uma série de Cooperativas de catadores e Pontos de entrega voluntária, mais perto de sua residência. Para quem é do Rio de Janeiro, o site da Coleta Seletiva Solidária do Instituto Estadual de Meio Ambiente, também disponibiliza uma lista com várias Cooperativas de Catadores.

O terceiro passo é armazenar adequadamente o lixo reciclável separado em um local seco, até que você obtenha um bom volume, para que periodicamente você leve a Cooperativa ou ao Ponto de coleta mais próximo. O lixo úmido eu continuo descartando como fazia anteriormente.

Além da certeza cidadã de que estou fazendo algo que irá diminuir o lixo, incentivo também o uso desta temática da coleta seletiva, como uma prática que, pode funcionar bem como uma ação de educação ambiental, desde que, sensibilize os envolvidos a reflexões mais profundas sobre a origem do lixo; a sua destinação inadequada em lixões; sobre os problemas ambientais como, por exemplo, poluição do solo, água, ar; problemas sociais como catadores que trabalham em condições desumanas nos lixões; sobre as relações de consumo e desperdício; sobre o entendimento do funcionamento da cadeia de produção capitalista; entre outros aspectos que não somente ensinar a separar o lixo em lixeiras coloridas.

Mudanças de hábitos de consumo e de produção


Partindo do princípio que somos seres biológicos, temos necessidades básicas para a nossa sobrevivência: uso da água, ingestão de alimentos, proteção e abrigo… No entanto, como vivemos em sociedade, somos também seres sociais, e além das necessidades básicas, temos outros tipos de necessidades, variáveis de cultura para cultura, mas imprescindíveis como, por exemplo, estudo, arte, diversão, felicidade… consumo!

Os hábitos de consumo, também tem origens sociais, é parte, de um ato através do qual as pessoas expressam identidades individuais e do grupo. O problema surge, da maneira como se dá este consumo, muitas das vezes influenciado por uma forte propaganda e distorções de valores da chamada sociedade de consumo. É ai que começamos a perceber o enorme abismo entre o TER de poucos e o NÃO TER de muitos. Gastos anuais em itens considerados de luxo como perfumes, cosméticos, cruzeiros marítimos, superam em muito os investimentos em saúde reprodutiva para mulheres, erradicação da fome e má nutrição, alfabetização, água potável e vacinação de crianças.

Além do abismo social mencionado acima, devemos ter em mente as consequencias ambientais do atual alto padrão de consumo, que proporcionam problemas diretos, como por exemplo: a produção excessiva de lixo,  disseminação de doenças causadas por animais que vivem no lixo, poluição do solo, aumento da emissão de gases estufa, contaminação das águas subterrâneas… E como resolver esta questão afinal?

Quem pensa que a Reciclagem é a salvação do mundo… Está enganado! A reciclagem no fim das contas apenas reduz parcialmente a deposição final de algumas categorias do lixo no ambiente (os recicláveis), e não desacelera o consumo exagerado, até o incentiva, pois, alivia o “peso na consciência” de que parte do lixo que produzimos diminuirá, pois, será reciclado.

Outros diriam que a solução talvez seja o Consumo Sustentável, aliado a inovações tecnológicas, que poderá resolver a questão do lixo, mas isso não irá desacelerar a produção, mantendo o sistema de consumo atual em pleno vapor e mais uma vez aliviando o “peso na consciência”. Está linha do consumo consciente por não ser contra-hegemônica é amplamente divulgada nos meios de comunicação.

Há os que acreditam, como eu, que a Redução do Consumo é o primeiro passo, e que a questão da geração do lixo é cultural, não podendo ser encarada como apenas um assunto técnico ou com paliativos como os até então apresentados a grande parte dos consumidores. No entanto, esse pensamento é contrário ao sistema de consumo, e ataca diretamente o capitalismo, pois uma vez que haja a redução do consumo a cadeia produtiva não se sustenta.

Não estou dizendo que é fácil reduzir o que compramos, ou mesmo filtrar o que realmente precisamos, diante dos apelos midiáticos e propagandísticos, que a sociedade do consumo praticamente nos faz engolir o tempo todo. Mas fica neste post um tema instigante de uma proposta de sairmos da nossa zona de acomodação e consumo, e que possamos pensar e fazer algo que seja diferente do que nos é imposto.