Por qual educação ambiental?


Essa parece ser a pergunta que tem norteado meu pensamento em relação a minha prática em educação ambiental. Mais que isso, tem sido objeto de divulgação aqui no blog e objeto de pesquisa do meu mestrado. Afinal, por qual educação ambiental?

  • Uma educação ambiental cuja proposta é a apenas a aquisição de princípios ecológicos gerais, que desejavelmente levem a mudanças comportamentais?

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O discurso da Sustentabilidade


Esse post baseia-se em um trecho de uma resenha crítica do um artigo “O discurso da sustentabilidade e suas implicações para a educação” de Gustavo da Costa Lima (2003).  O citado autor, realiza tendo como base a teoria discursiva de Foucault, como o discurso da sustentabilidade foi construído e carrega nele as relações de poder tipicamente relacionadas a classe hegemônica.

Para Foucault (2001) “toda sociedade controla e seleciona o que pode ser dito numa certa época, quem pode dizer e em que circunstâncias, como meio de filtrar ou afastar os perigos e possíveis subversões que daí possam advir”. Segundo Foucault, o modo como falamos e pensamos afetam profundamente a vida social, condicionando nosso comportamento e experiência, nossa visão de mundo e, por fim, o próprio mundo que ajudamos a criar.

Será que e existe apenas um discurso para a sustentabilidade?

Segundo Lima (2003) o histórico da construção do discurso da sustentabilidade tem início a partir dos anos 70 do século XX, através das movimentações sociais pela defesa da “ecologia”, das grandes Conferências da ONU que inclusive levaram a substituição do conceito do ecodesenvolvimento, por Sachs pelo conceito de Desenvolvimento Sustentável, imposto pela Comissão Brundtland. Com o termo “desenvolvimento sustentável” pretende-se, grosso modo “ecologizar a economia”. No âmbito da necessidade de hegemonizar o sistema e implantar as políticas neoliberais.

O discurso da sustentabilidade só funciona, pois, visa demonstrar que mesmo com a conservação ecológica é possível o crescimento dos negócios e economia. Esse discurso é considerado a vanguarda do ecocapitalismo mundial que visa reestruturação política e econômica do sistema aliada a conservação ambiental. No entanto a “sustentabilidade de mercado” não responde igualmente à crise social, pois, a orientação continua sendo concentração e não para a distribuição de riquezas e oportunidades. A prática tem demonstrado, por numerosas evidências, que o mercado é um eficiente instrumento de alocação de recursos, mas um perverso gestor das disparidades sociais e ambientais.

O discurso é uma expressão e exercício de poder. Assim o discurso da sustentabilidade, além de ser polissêmico, se constrói em diferentes interpretações em busca de que as diferentes visões envolvidas sejam aceitas como “verdadeira”. Embora o discurso da sustentabilidade possua um núcleo comum, a questão de um “futuro viável”, essa ideia pode ser alcançada de diferentes maneiras e através de diferentes discursos.

Segundo Lima (2003) existem algumas características que distinguem em dois grandes blocos discursivos o conceito de sustentabilidade:

1) O discurso oficial (hegemônico) da sustentabilidade em geral é considerado “verdadeiro”; aceito pelos setores governamentais, não governamentais e empresariais; quase sempre é um discurso pragmático; possui dimensão econômica e tecnológica da sustentabilidade; a economia de mercado regula o “desenvolvimento sustentável”; é baseado em tecnologias limpas e no processo econômico e de preservação ambiental; e possui como traço marcante a tendência a MODERNIZAÇÃO ECOLOGICA.

2) O discurso contra-hegemônico, da sustentabilidade tem como características: a concepção complexa e não apenas economicista da sustentabilidade social (equidade social) e ambiental; o Estado deve intervir no mercado ou estado se subordinar a sociedade civil (democracia participativa); baseia-se em sociedades sustentáveis; é avesso aos reducionismos econômicos e tecnológicos; possui como traço a ampla crítica a civilização capitalista, ao mito do progresso, ao fetiche consumista e a idolatria cientifica.

Diante do exposto é possível estabelecer qual discurso da Sustentabilidade é predominante. Fica claro também, perceber que mesmo sendo hegemônico, o discurso oficial que tenta dar conta da “crise ambiental”, e propõe “crescer sem destruir”, deixa algumas brechas contraditórias, o que o tornam ineficaz em reação a sua proposta inicial: crescer sem destruir.

Referências

FOUCAULT,  M.  A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2001.

LIMA, Gustavo da Costa. O discurso da sustentabilidade e suas implicações para a educação. Ambiente e sociedade, jul/dez 2003, vol. 6, n. 2, p. 99-119. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/asoc/v6n2/a07v06n2.pdf Acesso em: maio 2011

O conceito de meio ambiente: entre signos e representações sociais


No próximo dia 5 de Junho, será o Dia Mundial do Meio Ambiente e pretendo iniciar algumas reflexões sobre este conceito, colocando em pauta, a seguinte questão: O que para nós representa o conceito de meio ambiente? Especialmente eu por estar estudando, semiótica, tenho despertado o interesse em mim, por análises mais profunda de quais são os signos que para nós, especificamente representam o conceito de meio ambiente.

No entanto, antes de ir ao conceito de meio ambiente, vamos definir o que é semiótica, que nada é que o estudo dos signos e das ações dos signos. Os signos seriam “algo no lugar de algo”, ou seja, os signos podem ser qualquer coisa que facilitem e/ou permitam a compreensão do que é objeto (ou conceito) pelo sujeito. Assim os signos só existem, para levar o significado do objeto (ou conceito) ao sujeito, num processo que se denomina semiose, ou seja, a ação do signo sobre o sujeito.

Assim ao refletirmos sobre o conceito de meio ambiente, utilizando algumas noções referentes ao conceito de representação social, principalmente as contidas em REIGOTA (1995), quando ele se apropriando das definições de MOSCOVICI, propõe as representações sociais como sendo um conjunto de princípios construídos na interação entre os grupos sociais.

O sentido de uma representação social, é que ela por sua natureza construída, dentro das relações sociais, portanto cultural, esta irá ser carregada de vários signos, pois, toda representação é um signo, e estes signos irão variar de acordo o grupo o qual estamos inseridos.

Pode a cidade ser considerada meio ambiente?

Quais serão os diferentes signos que participam da formação do conceito de meio ambiente? Talvez sejam muitos, mas com toda certeza as diferentes visões sobre o meio ambiente, se relacionam às imagens mentais de grupos de pessoas a respeito deste conceito. No entanto, nem todos os signos que tentam construir o conceito de “meio ambiente” serão suficientes para o representar em sua totalidade, pois, uma característica da própria representação é sua incompletude, ao tentar representar o objeto, no caso o conceito de meio ambiente.

Esse conceito é deverás polissêmico, e não consensual, carregado de um conjunto simbólico enorme, por exemplo, muitas pessoas relacionarem o conceito de “meio ambiente”, a ecossistemas naturais (sem a presença humana), e isto se relaciona diretamente ao “mito moderno da natureza intocada” de DIEGUES (2004). Essa representação comum de meio ambiente é ao mesmo tempo simbólica quando pensamos em meio ambiente como sendo ambientes florestados (florestas tropicais) e icônica, quando inevitavelmente nos remetemos a cor verde, no que se refere a cor das florestas…

Mas será que o conceito de meio ambiente é composto apenas por florestas ou ecossistemas intocados? A resposta não virá neste post, pois a intenção é mesmo provocar questionamentos e não apenas responder a questão. Pense em quantos e quais, signos participam da formação do conceito de meio ambiente para você? Com toda certeza não serão os mesmos que os meus, mas, certamente poderemos observar nas respostas algumas similaridades no que podemos denominar de núcleo compartilhado de significados. Mesmo que nós nos exercitemos nessa construção coletiva, a soma de todas as representações simbólicas não darão como resultado final o objeto “meio ambiente”, mas podemos ao menos tentar.

Referências:

DIEGUES, A. C. S. O Mito moderno da natureza intocada. São Paulo, Ed. Hucitec, 2004. 382 p.

REIGOTA, M. Meio ambiente e representação social. São Paulo: Cortez, 1995.

Uma crítica ao conceito ecológico de ecossistema


Tomemos como exemplo o Brasil, nosso país possui nove ecossistemas: floresta amazônica, mata dos cocais, caatinga,  cerrado, pantanal, mata atlântica, manguezais,  pampas e mata de araucária. Os ecossistemas ou biomas caracterizam-se pelas relações entre os componentes ambientais, tais como: luminosidade, pluviosidade,  temperatura, influenciados sobretudo pela latitude em que se localiza e em alguns casos pela altitude; A esses componentes ambientais definimos como  fatores abióticos dos ecossistemas, os fatores bióticos são os seres vivos que ali vivem:  a fauna,  a flora, os fungos, os seres microscópicos, ou seja, todas as formas de vida existentes nestes biomas.  Esta é uma definição ecológica de ecossistema, no entanto, será que ela está completamente correta?

A ecologia é definida por RICKLEFS (2003), como a “a ciência pela qual estuda como os organismos interagem entre si e com o meio natural”, mas a não consideração do ser humano como um ser social de modificação e da sua relação específica com a natureza, é um erro considerável, pois não assume que as atividades humanas tais como as transformações e alteração da cobertura do solo, retirada de cobertura vegetal, instalação de infra-estrutura, construção de cidades, alterações dos cursos d´água, como sendo relações também inclusas na dinâmica do funcionamento dos ecossistemas.

Desses nove biomas brasileiros, alguns mais que outros, passaram por um intenso processo histórico de transformação antrópica, como por exemplo, a mata atlântica reduzida a 8% de sua cobertura original, inclusive neste blog tentei descrever como foi  sendo traçada estas relações ao longo de um processo histórico entre ser humano e natureza.

Sendo um ser social, o ser humano transforma a natureza e assim também o é transformado por ela, no entanto, a falta de conhecimento de causa do que essas transformações ocasionariam ao longo dos séculos,  aliada a interesses desenvolvimentistas e do próprio sistema capitalista  levou este resultado de degradação ambiental.

No século XX a partir da década de 70  os movimentos socioambientalistas denunciaram ao mundo essa degradação humana nos ecossistemas, vindo a tona, o que era antes apenas interesse dos cientistas, a toda a sociedade.  Isto significa dizer que a pouco mais de 40 anos atrás, o que particularmente acho pouquíssimo tempo, que  a sociedade foi “informada” de que a interferência humana nos ecossistemas pode levar a sua destruição,  fragmentação, a redução da biodiversidade, a poluição entre outros problemas bastante conhecidos hoje, até mesmo por uma criança de 8 anos.

Diante deste alerta podemos concluir que ao inserir os seres humanos como seres sociais que interagem e modificam os ecossistemas, e saber que isso nem sempre pode ser trazer consequencias positivas para a dinâmica dos mesmos é um começo quando se analisa a origem dos problemas socioambientais atuais. No entanto, não é somente essa análise que nos permitirá entender o todo de um processo complexo e histórico, social, econômico …

Referências:

RICKLEFS, R.E. A economia da natureza. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003.